Por Marco Severini — Depois de anos de pressão política, idas e vindas diplomáticas e marcos legislativos, foi firmado o acordo definitivo que transfere as atividades do TikTok nos Estados Unidos para uma nova estrutura controlada por investidores não chineses. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da tecnologia global, com implicações diretas sobre a segurança nacional, a soberania digital e a governança dos dados.
A nova entidade, batizada de TikTok USDS, foi organizada como uma joint venture de capital majoritariamente norte-americano. No desenho acionário anunciado, Silver Lake, Oracle e MGX aparecem com participações iguais, de 15% cada uma, enquanto a governança operacional passa a estar sob influência direta de atores econômicos e regulatórios dos Estados Unidos.
O desfecho visou conciliar dois objetivos aparentemente contraditórios: preservar a continuidade do serviço no mercado estadunidense e, ao mesmo tempo, cortar os laços de controle que alimentaram durante anos as preocupações sobre o acesso de Pequim aos dados de cidadãos americanos. Com o acordo, o TikTok USDS configura-se como uma entidade autônoma, apta a operar segundo as normas e controles impostos pelas autoridades dos EUA.
As raízes da controvérsia remontam ao fim de 2019, quando as primeiras dúvidas sobre a segurança dos dados levaram à proibição do aplicativo em dispositivos governamentais. O ponto de ruptura ocorreu em agosto de 2020, quando o então presidente Donald Trump assinou um decreto executivo exigindo que a proprietária chinesa, ByteDance, alienasse suas operações americanas em noventa dias, alegando risco de exposição de informações sensíveis ao governo de Pequim.
Nos anos seguintes, a administração Biden manteve a pressão, embora a plataforma tenha apresentado propostas mitigadoras, como o chamado Project Texas — um plano para isolar dados de usuários americanos em servidores geridos por fornecedores norte-americanos, notadamente a Oracle. A tensão institucional culminou em abril de 2024, quando o Congresso aprovou uma lei que estabeleceu um ultimato para a venda, com prazo final em 19 de janeiro de 2025.
Curiosamente, a disputa ganhou uma nova textura durante a última campanha eleitoral: o próprio Donald Trump moderou seu discurso, reconhecendo o valor comunicacional da aplicação para a esfera política e sugerindo que sua eventual extinção seria prejudicial ao debate público. Esse realinhamento tático foi um dos vetores que permitiu a negociação final.
Do ponto de vista geoestratégico, o acordo representa mais do que uma operação corporativa: é um novo reposicionamento dos alicerces da diplomacia digital entre Washington e Pequim. A formação do TikTok USDS simboliza um redesenho de fronteiras invisíveis no espaço dos dados, onde atores privados e instituições públicas reequilibram influência e controle.
Embora o desfecho permita a continuidade do serviço e alivie preocupações imediatas sobre a exposição de dados, permanecem questões cruciais: como serão implementados os mecanismos de auditoria independentes? Que garantias jurídicas efetivas assegurarão a separação das cadeias de decisão entre a matriz chinesa e a nova entidade norte-americana? Em suma, o acordo resolve o dilema imediato, mas inaugura uma fase complexa de supervisão e verificação.
Em termos práticos, o mercado e os usuários americanos ganham tempo e previsibilidade. Em termos estratégicos, a tectônica de poder entre Estados Unidos e China desloca-se novamente — agora por meios financeiros e jurídicos, mais do que por ordens executivas ou vetos. No tabuleiro global, cada peça movimentada hoje pode definir posições futuras: o TikTok USDS é uma jogada que visa preservar espaço de atuação sob regras compatíveis com os interesses de segurança dos EUA.
O acordo será acompanhado de perto por reguladores, parlamentos e especialistas em privacidade, que deverão avaliá-lo não apenas pela configuração acionária, mas pela robustez dos dispositivos que protegem os dados dos usuários e a integridade da plataforma como espaço de informação pública.





















