Por Marco Severini — Em menos de uma semana após a reestruturação acionária da divisão norte-americana do TikTok, surgem os primeiros sinais de um movimento decisivo no tabuleiro da informação. Usuários e criadores de conteúdo relatam que publicações críticas ao ICE, ao governo Trump, a Jeffrey Epstein e até posts que continham a palavra “sionista” foram removidos, colocados em shadowban ou sinalizados como violação das “linhas de diretrizes” da plataforma por suposto discurso de ódio.
O novo arranjo societário, que transferiu à joint venture americana 50% das quotas da operação dos EUA — divididas entre Oracle, Silver Lake e MGX (cada uma com cerca de 15%), com outros investidores americanos detendo cerca de 35,1% e a ByteDance mantendo uma fatia de 19,9% — foi apresentado como uma resposta às preocupações regulatórias. A formalização do acordo tinha data limite para 22 de janeiro.
Entretanto, a mudança de controle parece já ter implicações práticas na modulação do fluxo informativo. Nos dias recentes, criadores registraram visualizações anormalmente baixas em vídeos que tratavam da morte de Alex Pretti, enfermeiro de terapia intensiva de 37 anos, baleado em Minneapolis em 24 de janeiro por um agente da Border Patrol. O episódio gerou protestos contra o ICE, mas a repercussão na plataforma foi descrita como estranhamente reduzida, segundo relatos.
Além disso, no fim de semana anterior ao reporte, múltiplos usuários notaram que publicações críticas ao ICE, ao próprio ex-presidente Trump e a figuras relacionadas ao escândalo Epstein tiveram alcance drasticamente limitado. Alguns conteúdos foram removidos sem explicações claras; outros foram simplesmente “rallentati” — isto é, retardados no algoritmo, recebendo menos distribuição e engajamento.
Testemunhos também indicam que posts contendo a palavra “sionista” foram automaticamente sinalizados como violadores das diretrizes, enquadrados como hate speech. A interpretação automática de termos politicamente carregados, quando operada de forma embrionária e sem transparência, desmonta alicerces frágilmente assentados da liberdade de expressão digital e redesenha fronteiras invisíveis na cartografia da discussão pública.
Paralelamente, no dia 25 de janeiro, milhares de usuários relataram problemas técnicos em massa: falhas no envio de vídeos, contagem de seguidores travada e conteúdo aparecendo com zero visualizações. O serviço de monitoramento Downdetector confirmou interrupções generalizadas, alimentando a indignação que tomou forma no X sob a etiqueta #TikTokCensorship.
Críticos apontam que a presença de atores próximos a Washington — e a referências públicas ao apoio financeiro de figuras como Larry Ellison a causas relacionadas a Israel — alimenta a narrativa de que a plataforma estaria a serviço de um alinhamento geopolítico. As acusações são graves e exigem investigação: numa tectônica de poder tão sensível, qualquer interferência no fluxo informativo funciona como um lance que pode alterar o jogo estratégico entre atores estatais e privados.
Do ponto de vista institucional, resta observar se haverá explicações formais da nova administração do TikTok nos EUA sobre os critérios de moderação, logs de conteúdo removido e a arquitetura algorítmica que decide promoção ou sufocamento de posts. Em um mundo onde a influência se exerce tanto por infraestrutura quanto por narrativa, transparência e auditoria independentes são as peças que evitam o colapso das regras do jogo.
Enquanto isso, a comunidade digital permanece em alerta. A sequência de eventos — mudança acionária, relatos de supressão e problemas técnicos — desenha um cenário em que a estabilidade das relações de poder no ambiente online passa a depender não apenas de contratos, mas de escolhas de moderação e governança que reverberam na diplomacia informacional.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia. Observa os movimentos globais com olhar de tabuleiro e foco na estabilidade das relações de poder.






















