Munich, 13 de fevereiro de 2026 — À sombra das crescentes fricções entre EUA e União Europeia abre-se a 62ª edição da Conferência de Segurança de Munique, onde as ambições norte-americanas sobre a Groenlândia permanecem um nó delicado, apesar do acordo vago anunciado em Davos semanas atrás. O encontro, tradicionalmente hospedado no Hotel Bayerischer Hof, assume este ano tonalidades de confronto estratégico mais do que meras formalidades diplomáticas.
Na edição anterior, o evento fora marcado pela dura reprimenda do vice-presidente norte-americano, JD Vance, aos aliados europeus, acusados de políticas internally desagregadoras em clima, imigração e liberdade de expressão. Agora, Washington opta por uma tática mais conciliatória: será representada pelo secretário de Estado Marco Rubio, figura que busca aliviar a pressão sobre um continente que, segundo a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana, estaria enfraquecido por excesso de regras e falta de autoconfiança cultural.
Rubio declarou, já a bordo de seu avião rumo à Europa, que “vivemos uma nova era geopolítica” e que será necessário reconsiderar papéis e posturas. No tabuleiro diplomático, trata-se de um movimento calculado: primeiro encontro com os pares do G7, seguido por uma agenda repleta de líderes-chave — a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen; o presidente francês, Emmanuel Macron; o chanceler alemão, Friedrich Merz; o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer; o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk; e a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.
Para a Itália, comparecem o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, e o ministro da Defesa, Guido Crosetto. No epicentro das conversações estará, inevitavelmente, a Groenlândia, com uma proposta intermediada pelo secretário-geral Mark Rutte — outro participante presente. A agenda, contudo, vai além: evolução da aliança transatlântica, rearmamento europeu e a guerra na Ucrânia figuram como itens prioritários.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky procura garantir que o conflito continue em destaque e tenta agendar um encontro com Rubio. Há, todavia, sinais de que Washington quer encerrar rapidamente a questão ucraniana para reorientar laços com Moscou — iniciativa evidenciada pela visita subsequente de Rubio aos líderes europeus mais próximos de Moscou, o húngaro Viktor Orbán e o eslovaco Robert Fico. Esse movimento revela uma tentativa de redesenhar, nos bastidores, linhas de influência e possíveis zonas de concessão. O ponto sensível permanece: qualquer solução negociada implicará cedências territoriais da Ucrânia, sobretudo nas áreas do Donbass que Kiev ainda controla.
Os trabalhos da Conferência estendem-se até domingo. A poucos dias do encerramento, em 19 de fevereiro Washington realizará a sessão inaugural do seu denominado “Conselho da Paz” — mais um lance na tectônica de poder que determina prioridades estratégicas globais.
Em análise: este não é apenas um encontro protocolar; é um movimento decisivo no tabuleiro transatlântico. Os alicerces da diplomacia estão sob tensão, e a capacidade dos atores de combinar firmeza e flexibilidade definirá se a Conferência será um ponto de convergência cuja arquitetura assegure estabilidade, ou mais uma peça a fragilizar um sistema já testado por rupturas contemporâneas.
Marco Severini, Espresso Italia — análise estratégica e geopolítica






















