Por Marco Severini — O Estreito de Hormuz continua a ser o ponto nevrálgico da energia mundial, mas hoje sua importância estratégica convive com um aumento claro dos riscos estruturais. Trata-se de um corredor marítimo por onde fluem diariamente cerca de 18–21 milhões de barris de petróleo, ou aproximadamente 20–25% do consumo global, além de volumes relevantes de GNL (gás natural liquefeito). A arquitetura das rotas energéticas que sustentam a economia global apoia-se, assim, em alicerces frágeis.
Grande parte desse fluxo destina-se à Ásia: China, Índia, Japão e Coreia do Sul dependem criticamente da segurança desse estreito. O Qatar, um dos maiores exportadores mundiais de GNL, utiliza quase exclusivamente Hormuz para alcançar os mercados internacionais. Existem alternativas terrestres, como oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados, mas sua capacidade é limitada e incapaz de compensar uma interrupção prolongada do tráfego marítimo.
O resultado é conhecido: qualquer tensão no local tem impacto imediato nos mercados energéticos, eleva prêmios de seguro para petroleiros e altera a percepção do risco geopolítico global. Nos últimos meses a atenção internacional voltou-se para o reforço das capacidades militares iranianas ao longo da costa sul do país, sobretudo na província de Hormozgan e em Bandar Abbas, seu principal nó naval voltado para o estreito.
Não se trata de gestos meramente simbólicos. Observamos a montagem de um sistema militar integrado que combina mísseis antinavio com alcance anunciado de até 2.000 km, vetores balísticos de maior alcance e precisão como os Qassem Bassir (tornados públicos em maio de 2025), defesas aéreas costeiras, drones operados de forma coordenada e forças navais leves, incluindo submarinos de difícil detecção. A Guarda Revolucionária (IRGC) introduziu plataformas inovadoras, como a capacidade portadrones Shahid Bagheri, e reconduziu ao serviço fragatas modernizadas como a Sahand, agora dotadas de defesas aéreas reforçadas.
Esta conjugação de meios destinase não apenas à dissuasão, mas à criação de uma capacidade assimétrica de controlo marítimo, pensada para saturar defesas adversárias e aumentar a incerteza operacional do tráfego comercial. O ponto central, entretanto, não é se o Estreito pode ser fechado permanentemente — muitos analistas consideram essa hipótese de difícil sustentabilidade — e sim a credibilidade e a persistência da ameaça de instabilidade.
Recordemos a lição da chamada “guerra das petroleiras” durante o conflito Irão-Iraque nos anos 1980: ataques dirigidos, minas navais e sabotagens abundaram e obrigaram a adaptações logísticas e militares por parte das marinhas e das empresas petrolíferas. Hoje, com sistemas de armas mais sofisticados e uma teia regional mais complexa, o risco de incidentes cresce, assim como o potencial impacto sobre preços do petróleo, disponibilidade de GNL e seguros de transporte.
Em resposta, potências ocidentais e asiáticas mantêm presença naval, escoltas e operações de liberdade de navegação, enquanto companhias de energia estudam rotas alternativas e contingências contratualmente mais caras. Do ponto de vista diplomático, o estreito tornou-se um espaço de múltiplas camadas: negociações sobre o programa nuclear iraniano, sanções econômicas e rivalidades regionais compõem um tabuleiro em que cada movimento repercute além da superfície do mar.
Para os atores dependentes das importações energéticas, a tarefa é combinar resiliência logística com prudência estratégica: reforçar estoques, diversificar fornecedores e preparar rotas alternativas sem provocar uma escalada desnecessária. Para o Irã, a construção dessa capacidade é um esforço deliberado de influência regional — um desenho de poder que visa criar margem de manobra e aumentar o custo de qualquer coerção externa.
Como analista, insisto em uma perspectiva de longo prazo: o estreito é hoje uma peça de xadrez geopolítico onde jogadas técnicas e simbólicas se sobrepõem. A estabilidade global exige que os alicerces da diplomacia e os canais de comunicação entre estados sejam preservados, porque, no jogo das grandes potências, a fragilidade de um único ponto de passagem pode redesenhar fronteiras de influência invisíveis e elevar o preço da estabilidade para toda a economia mundial.






















