Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento decisivo no tabuleiro político do Japão, a primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou o dissolvimento da Câmara Baixa do Parlamento, abrindo caminho para eleições antecipadas marcadas para 8 de fevereiro. A decisão, tomada menos de quatro meses após sua eleição em outubro como a primeira mulher a liderar o Executivo nipônico, busca capitalizar um momento de elevada aprovação pessoal — próximo de 70% — e converter esse impulso em estabilidade parlamentar para um governo que hoje detém uma maioria frágil de 233 assentos em 465.
Oficialmente, a operação tem três pilares claros: a suspensão temporária do imposto sobre o consumo aplicado a alimentos, o aumento da despesa pública e a aceleração do projeto de rearmamento. A proposta de suspender por dois anos o imposto de consumo de 8% sobre alimentos, medida que o governo estima custar cerca de 5.000 bilhões de ienes por ano (aproximadamente 27,2 bilhões de euros), visa aliviar o aperto sobre as famílias diante de uma inflação persistente. No entanto, a oferta fiscal já provocou reações nos mercados, com os rendimentos dos títulos de referência a dez anos atingindo níveis não vistos em 27 anos, reflexo de preocupações crescentes sobre a sustentabilidade da dívida pública.
Ao apresentar o calendário eleitoral, Takaichi — líder do Partido Liberal-Democrata (LDP), força que governa quase continuamente o Japão nas últimas sete décadas — qualificou o pleito como um “julgamento direto” sobre sua liderança e sobre as “transições estratégicas” acordadas com o parceiro de coalizão, o Partido da Inovação do Japão (JIP). A meta declarada é consolidar uma maioria duradoura e superar o obstáculo que representa o Senado, onde a coalizão está em minoria.
Do ponto de vista institucional, a campanha terá uma singularidade histórica: com apenas 16 dias entre o dissolvimento da Câmara e a votação, configura-se como a campanha eleitoral mais curta do pós-guerra. É também a primeira vez desde 1992 que a Dieta é dissolvida no início de uma sessão ordinária convocada em janeiro, um gesto que insere o processo em pleno inverno político.
Na matriz estratégica de Takaichi a segurança ocupa papel central. A primeira-ministra, de 64 anos, afirma ser missão fundamental do Estado proteger vidas e meios de subsistência, justificando assim a intenção de elevar os gastos militares ao patamar de 2% do PIB. Trata-se de um reposicionamento da tectônica de poder regional, enquanto o Japão busca reforçar capacidades dissuasivas num ambiente geopolítico mais tenso.
O adiamento do debate e da votação do orçamento, projetado para relançar uma economia combalida e frear o avanço dos preços, é um custo político e técnico tangível. Adiar a peça orçamentária expõe os alicerces frágeis da diplomacia econômica do governo e amplia os riscos associados à confiança dos investidores e às agências de rating.
Em resumo, a dissolução convoca uma encruzilhada: Takaichi aposta que a atual onda de popularidade e um programa corporificado em medidas econômicas expansivas e reforço de defesa constituam um plano coerente para recompor maiorias e redesenhar linhas de influência no arquipélago político japonês. Como em uma partida de xadrez, a jogada é audaciosa — porém, expõe ao mesmo tempo o rei a possibilidades de contra-ataque nos mercados e no Senado.






















