Por Marco Severini — Amanhã terá lugar em Washington a sessão inaugural do Board of Peace, a iniciativa promovida pelo presidente americano Donald Trump para acompanhar o processo de estabilização e reconstrução da faixa de Gaza. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, viajará como representante-observador da Itália, designado pela presidente do Conselho, Giorgia Meloni. Esta primeira reunião formal, sucedendo ao lançamento do projeto em Davos no mês passado, servirá para fazer um balanço da implementação do plano de 20 pontos proposto pela Casa Branca e para avaliar os projetos de investimento e reconstrução da região.
A delegação italiana, coordenada pela Farnesina, integra um conjunto mais amplo de atores: o chefe do comitê tecnocrático palestino, Ali Shaat; o Alto Representante para Gaza, Nickolay Mladenov; e a maioria dos membros do Board e dos observadores, com a participação de representantes da presidência cipriota da União Europeia e da Comissão Europeia. Ao anunciar a presença em Washington, Tajani ressaltou a necessidade de “estar presentes no momento em que se fala e se tomam decisões para a reconstrução de Gaza e sobre o futuro da Palestina”.
Nas palavras do chefe da diplomacia italiana, “a Itália sempre teve um protagonismo no flanco sul do Mediterrâneo e não pode ficar à margem de uma estratégia que exigirá de nós estar na linha de frente”. A participação como observador, acrescentou Tajani, “é uma escolha política que respeita a Constituição da República” e se insere numa estratégia coordenada com a União Europeia, que enviará a comissária suíça, e com o governo cipriota que dirige temporariamente a UE.
Do ponto de vista da diplomacia romana, a adesão ao Board of Peace materializa a continuidade do compromisso italiano com o processo de paz no Oriente Médio: desarmamento do Hamas, desmilitarização da Faixa de Gaza e início de sua reconstrução, sempre no respeito ao direito internacional e alinhado à Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU, que confere ao Board a função de monitorar o processo de estabilização regional.
Desde o início da crise, a Itália vem assumindo um papel de primeiro plano para facilitar a estabilização e oferecer apoio humanitário à população civil. Entre as iniciativas mais visíveis, a campanha “Food for Gaza”, lançada por Tajani em março de 2024, é citada pela Farnesina como exemplo do esforço italiano. Paralelamente, o governo está finalizando um plano nacional que agregará competências e recursos do Sistema Itália para a reconstrução, com foco nos setores de saúde, educação e segurança alimentar.
Na esteira dessas iniciativas, a recente missão do embaixador Bruno Archi a Riade e Abu Dhabi, como enviado especial para a reconstrução de Gaza, insere-se numa diplomacia prática que busca parceiros e financiamento. Ainda assim, no limiar da sessão inaugural, permanecem dúvidas e nós a desatar: a arquitetura institucional do Board, as garantias financeiras, a coordenação entre atores regionais e extrarregionais e, sobretudo, a capacidade de transformar intenções em projetos concretos sobre o terreno.
Em termos estratégicos, a participação italiana no Board representa um movimento no tabuleiro que visa preservar os alicerces da influência mediterrânea de Roma e contribuir para um redesenho de fronteiras invisíveis — políticas e humanitárias — que definirão a segurança do eixo energético e migratório nos próximos anos. A Itália aposta em uma diplomacia de presença: discreta, técnica e orientada por resultados, como se delineassem, com precisão de arquiteto, os contornos de uma paz frágil, porém necessária.






















