Por Marco Severini — Em uma noite que reconfigura, ainda que momentaneamente, as linhas do poder simbólico no esporte norte-americano, o Seattle Seahawks conquistaram o título do Super Bowl ao derrotar os New England Patriots por 29-13. Foi um resultado decidido pela solidez defensiva de Seattle, que manteve a equipe adversária sem pontos durante a maior parte da partida, apenas permitindo uma reação dos Patriots já no último quarto, quando o placar havia se estabelecido em 12-0 a favor dos vencedores.
O triunfo dos Seahawks representa, no tabuleiro maior da narrativa pública, um movimento decisivo: a equipe apoiada, segundo relatos, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saiu derrotada pelo segundo ano consecutivo em finais em que o magnata havia demonstrado preferência. Na edição anterior, a derrota havia recaído sobre os Kansas City Chiefs, naquele que foi interpretado como um choque simbólico entre preferências políticas e desfechos esportivos.
Paralelamente ao confronto atlético, o espetáculo musical do intervalo teve papel central na tessitura do evento. O artista porto-riquenho Bad Bunny foi o headliner e transformou o entretenimento em um momento culturalmente expansivo — vestindo branco, luvas e carregando um balón de futebol, iniciou seu set com a hit “Tití Me Preguntó”. Seu show, energizado e de vocação ibero-americana, fez a plateia californiana dançar num ritmo que transcendeu o mero entretenimento para se tornar um gesto identitário.
Houve ainda participações-surpresa: Lady Gaga, trajando azul, apresentou uma versão merengue de “Die With A Smile” e dividiu o palco com Bad Bunny em uma performance de “Baile Inolvidable”; já Ricky Martin surgiu sentado em uma das cadeiras brancas que fazem referência à estética do seu álbum “DtMf”, contribuindo para a densidade latino-ibero do espetáculo.
No entanto, a noite não foi isenta de controvérsia. Em sua plataforma Truth, Donald Trump disparou críticas ao show do intervalo, afirmando que “o espetáculo do intervalo do Super Bowl é absolutamente terrível, um dos piores de sempre” e que “ninguém entende uma palavra do que esse homem diz”, condenando também as coreografias como inadequadas para crianças. As declarações, lidas como mais um movimento nas fricções culturais e políticas que atravessam os grandes palcos dos Estados Unidos, reacendem debates sobre identidade, linguagem e consumo cultural em escala global.
Como analista, relevo que o episódio tem duas leituras complementares: de um lado, a vitória tática e corpórea dos Seahawks no campo; do outro, o espetáculo do intervalo — liderado por Bad Bunny — e as reações presidenciais. É um redesenho de fronteiras invisíveis entre diplomacia cultural e disputa simbólica. Em termos de Tectônica de poder, assistimos tanto a um check estratégico no tabuleiro esportivo quanto a um movimento de soft power que questiona alicerces frágeis da diplomacia cultural tradicional.
Em resumo: vitória convincente dos Seahawks, show memorável de Bad Bunny com aparições de Lady Gaga e Ricky Martin, e uma reação presidencial que transforma o intervalo em novo campo de confronto simbólico. Um movimento que, no grande tabuleiro, merece leitura atenta por sua capacidade de influenciar narrativas e mapas de influência além do gramado.






















