Por Marco Severini — Analista sênior em geopolítica e estratégia internacional
O WFP (Programa Mundial de Alimentos) lançou um alerta que contém, nas poucas palavras diretas, um prognóstico severo sobre o Sudão: sem aportes financeiros imediatos, as reservas alimentares administradas pela agência estarão esgotadas até março, situação que deixará milhões sem assistência num contexto que já é a maior emergência alimentar global.
Assinado por Ross Smith, diretor de preparação e resposta a emergências do WFP, o comunicado destaca que os progressos humanitários conseguidos com enorme esforço estão hoje em risco. A agência foi forçada a reduzir as rações ao nível estritamente necessário para a sobrevivência — um movimento que, no jargão da diplomacia humanitária, equivale a admitir que o alicerce logístico está rachando.
Segundo o WFP, cerca de 21 milhões de pessoas no Sudão enfrentam fome aguda. Desde o início do conflito, em abril de 2023, a agência estima ter alcançado mais de 10 milhões de mulheres, homens e crianças com ajuda alimentar de emergência, transferências monetárias e intervenções nutricionais. Atualmente, o WFP presta assistência a uma média de quatro milhões de pessoas por mês, incluindo áreas hoje mais acessíveis, como Darfur e Kordofan, bem como os estados de Khartoum e Al Jazira. Sem novos fundos imediatos, essas operações estarão inviabilizadas.
O quadro humano é agravado por números de deslocamento e violência que configuram um perigoso redesenho das fronteiras sociais do país. Agências da ONU estimam que, apenas nos últimos dias, cerca de 8 mil pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas, acrescendo-se a um contingente já massivo de deslocados internos e refugiados. Em algumas áreas, até 53% da população foi deslocada. Organizações como a Save the Children apontam cifras ainda mais sombrias: cerca de 12 milhões de deslocados e crianças pagam o preço mais alto — mortas, abusadas e estupradas em um contexto de impunidade crescente.
Relatos da UNICEF e de outras ONGs confirmam mais de 200 casos de violência sexual contra menores desde o início de 2024, incluindo vítimas com menos de cinco anos. Esses crimes, somados ao colapso das infraestruturas de saúde e logística, ilustram uma tectônica de poder que transforma zonas civis em teatros de ruptura social.
Do ponto de vista estratégico, o Sudão vive um movimento decisivo no tabuleiro: o confronto entre as forças armadas regulares (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) não é apenas uma disputa por territórios, mas uma luta que rearranja corredores de ajuda, linhas de abastecimento e a própria capacidade do sistema internacional de responder. A redução das rações pelo WFP é, na prática, um recuo de peças essenciais no xadrez humanitário.
O apelo do WFP é claro e simples: financiamento imediato para evitar que estoques se esgotem até o fim de março. Do ponto de vista diplomático, trata-se de uma janela estreita para atores estatais e institucionais restaurarem os alicerces frágeis da resposta humanitária, sob pena de verem-se diante de uma crise que transbordará fronteiras, alimentando fluxos migratórios e instabilidade regional.
Em suma, o Sudão está diante de um precipício humanitário. A comunidade internacional tem agora um período limitado para transformar intenção em recursos concretos; caso contrário, a continuidade do conflito terá o efeito de um xeque-mate para milhões de civis vulneráveis.






















