Por Marco Severini — A lógica do poder no Sudão avança como um tabuleiro de xadrez onde peças paramilitares e instituições estatais disputam espaço, com custos humanos imensuráveis. Desde abril de 2023, o país vive um conflito entre as forças paramilitares das RSF, lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo (conhecido como Hemedti), e o Exército regular (SAF), comandado pelo presidente Abdel Fattah Abdelrahman al-Burhan. A ruptura, originada na falha de integração dos paramilitares nas forças regulares, tornou-se uma guerra pela hegemonia interna e pela controle das rotas de influência.
A Sudan Doctors Network, organização de médicos voluntários que monitora e presta atendimento às populações afetadas, descreve um quadro de devastação humanitária e violações sistemáticas. Em entrevista concedida a este jornal, o Dr. Mohamed Faisal detalhou que, em regiões como Kordofan e Darfur, as ocorrências são “de todo tipo”: estupros, execuções sumárias, assassinatos em massa, uso da fome como arma, agressões a pessoas com deficiência e destruição de infraestrutura médica.
O caso de Al-Fashir, capital do Norte de Darfur, é paradigmático. Após um cerco que durou cerca de 500 dias, a cidade foi tomada por forças leais a Hemedti. Missões de investigação da ONU registraram, no local, “sinais evidentes de genocídio” e apontaram condutas dirigidas contra comunidades não-árabes, com intenção de promover uma “limpeza étnica”. Segundo o relatório, as RSF atuaram com o objetivo de destruir, no todo ou em parte, comunidades como os Zaghawa e os Fur — traços que qualificam as atrocidades como genocidas.
A atuação da Sudan Doctors Network tem dupla função: assistência médica de emergência e documentação das violações para mídias locais e internacionais. O Dr. Faisal relatou a complexidade logística de operar em um território fragmentado, onde corredores humanitários são intermitentes e a segurança é precária. As equipes, compostas por voluntários, dividem o país por regiões e tentam mapear a evolução do conflito, fornecendo evidências fundamentais para processos de responsabilização.
Do ponto de vista estratégico, o fenômeno revela um redesenho de fronteiras invisíveis no Sudão — não geográficas, mas de influência e controle social. A ascensão das RSF e a resistência do SAF geri-mailam uma tectônica de poder que afeta não apenas as dinâmicas internas, mas também as relações regionais, fronteiras humanitárias e as rotas do comércio e da água do Nilo. A instrumentalização da fome e a perseguição de grupos étnicos configuram, em meu entendimento, movimentos profundamente deliberados, com consequências de longo prazo para a estabilidade do Corno de África.
As implicações internacionais são claras: investigações da ONU, apelos por acesso humanitário e potenciais encaminhamentos para tribunais internacionais. A comunidade diplomática deve agir com firmeza, respeitando os alicerces do direito internacional e evitando gestos simbólicos insuficientes. A documentação proporcionada por organizações como a Sudan Doctors Network representa uma peça-chave no processo de responsabilização e na reconstrução da confiança social, essenciais para qualquer solução política sustentável.
Em termos práticos e imediatos, a prioridade continua sendo a proteção dos civis, a garantia de corredores humanitários seguros e a preservação de evidências para futuras investigações. Como em uma partida de xadrez bem disputada, os movimentos podem parecer lentos, mas a falta de intervenção eficaz pode consolidar posições que tornam mais difícil reverter os danos: a história do Sudão estará marcada pelo que for decidido nas próximas jogadas.






















