Por Marco Severini — Em análise fria e calculada, o mais recente relatório de Human Rights Watch e as conclusões de uma missão de inquérito das Nações Unidas traçam um quadro perturbador sobre a tomada de Al-Fashir e os crimes ali cometidos. Segundo as investigações, as milícias da RSF teriam deliberadamente tomado como alvo, maltratado e executado civis identificados como pessoas com deficiência, num padrão de violência que, em linguagem técnica, aproxima-se de indícios de genocídio.
O assalto final à cidade ocorreu em 26 de outubro de 2025, após um cerco de aproximadamente 18 meses. Durante a fuga massiva de civis e na desarticulação das defesas locais, relatores independentes documentaram execuções sumárias, espancamentos, abusos sexuais e extorsões. Testemunhos coletados pela Human Rights Watch — incluindo 22 sobreviventes e oito ativistas — descrevem episódios em que pessoas sem um membro, cegas, com mobilidade reduzida ou com condições intelectuais foram identificadas, insultadas e mortas em praça pública.
Uma enfermeira de 29 anos relatou ter presenciado o assassinato de um jovem com síndrome de Down, de um menino cego e de uma mulher incapaz de caminhar; relatos que se somam a depoimentos sobre rapto de acompanhantes e acusações de estupro combinadas com pedidos de resgate. Fontes descrevem ainda a utilização de metralhadoras e fuzis de assalto contra grupos de civis com deficiência física, evidenciando um padrão sistemático e não aleatório de violência.
As denúncias apontam para critérios de seleção das vítimas que não se limitam à condição de saúde. Cor da pele, sotaque e presumíveis laços com as forças armadas sudanesas teriam sido usados como parâmetros para decidir quem viveria ou morreria — uma lógica de categorização capaz de agravar o caráter étnico e político dos ataques. Neste tabuleiro de poder, onde as peças civis são descartadas, a violência adquire finalidade política e identitária.
Em paralelo, a missão de inquérito das Nações Unidas declarou ter encontrado “sinais distintivos de genocídio” dirigidos contra comunidades não árabes de Al-Fashir, em especial os grupos Zaghawa e Fur. A tipificação nunca é meramente retórica: ela redesenha fronteiras legais e abre caminho para medidas punitivas e de responsabilização internacional.
As consequências diplomáticas já começaram a emergir. A ONU sancionou quatro líderes das RSF, numa ação que, embora não detalhada em público, costuma incluir congelamento de bens e proibições de viagem — instrumentos concebidos para interromper a circulação das cabeças de comando e limitar seus corredores de influência.
Para um analista sênior, a leitura estratégica é clara: a violência em Al-Fashir não é apenas um surto de brutalidade; é um movimento decisivo no tabuleiro, destinado a consolidar controle territorial e desarticular comunidades que representam, na ótica dos perpetradores, uma resistência social ou militar. Os alicerces da diplomacia e da ordem regional ficam expostos e frágeis quando atrocidades desse tipo passam a ser usadas como ferramenta de poder.
O caminho adiante exige investigação independente, preservação de provas e mecanismos reais de responsabilização. Sem isso, a tectônica de poder regional continuará a deslocar-se em direção a um desenho mais violento e polarizado, com consequências humanitárias e geopolíticas que atravessam fronteiras.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















