Por Marco Severini — Em um movimento que revela o afundamento progressivo dos alicerces da ordem e da proteção civil, o conflito no Sudan voltou a registrar um crime de guerra de consequências imediatas e simbólicas. Na manhã de 5 de fevereiro de 2026, forças paramilitares identificadas como RSF atacaram, com emprego de drones, o hospital militar de Al-Kuweik, no estado do Kurdufān meridional. O balanço inicial aponta pelo menos 22 pessoas mortas, entre elas o diretor médico da unidade e três membros do quadro de saúde.
Fontes do Sudan Doctors Network relatam que o ataque atingiu áreas internas da estrutura hospitalar controlada pelo SAF (Forças Armadas Sudanesas), transformando um centro de atendimento em alvo e resultado de um claro padrão de hostilidade dirigido contra infraestruturas médicas. A responsabilidade acusatória recai sobre o comando paramilitar de Mohamed Hamdan Dagalo, figura central das RSF e já associada a uma série de operações marcadas por violência indiscriminada.
Este episódio ecoa, tragicamente, a incursão no Saudi Maternity Hospital de Al-Fashir em outubro de 2025, que deixou centenas de vítimas. Há um modo de partida no tabuleiro estratégico: ao desmantelar hospitais e cortar linhas de assistência, atores beligerantes não apenas buscam vantagem tática, mas procuram minar a resistência social e corroer a legitimidade das instituições adversárias. A dimensão humanitária, por sua vez, transforma-se num peão descartável com efeitos de longo prazo.
Paralelamente às ofensivas militares, organismos humanitários e avaliações conjuntas de segurança alimentar alertam para um alarme nutricional grave em áreas contestadas do Darfur. Em Um Baru e Kernoi, índices de insegurança alimentar e desarticulação logística elevam o risco de episódios de fome. Relatórios apontam que cerca de 53% das crianças menores de cinco anos em Um Baru já apresentam sinais de malnutrição aguda — um número que, se confirmado, indica uma crise de amplitude quase sistêmica.
Do ponto de vista estratégico, a conduta encontrada embute dois vetores perigosos: a militarização de bens civis essenciais e o estrangulamento de corredores humanitários. O chefe do SAF, Abdel Fattah al-Burhan, declarou ter reaberto artérias logísticas para permitir chegada de comida, combustível e suprimentos médicos, numa tentativa de mitigar o impacto humanitário e reconquistar espaços de legitimidade administrativa.
Como analista que observa o tabuleiro regional, cabe sublinhar que atos dessa natureza não são eventos isolados, mas movimentos que redesenham fronteiras de influência e testam a resiliência das instituições internacionais. A comunidade internacional tem diante de si não apenas a urgência de condenar, mas a necessidade prática de garantir mecanismos de proteção efetivos — de garantias de passagem para assistência a medidas concretas de responsabilização.
Enquanto investigações e levantamentos prosseguem, o relato mais imediato é de vidas interrompidas, estruturas destruídas e comunidades empurradas para um abismo nutricional. A sombra do desastre humanitário paira sobre o Sudan, exigindo respostas que unam diplomacia sólida, pressão por responsabilização e ações humanitárias coordenadas para restaurar, ao menos, os alicerces mínimos da segurança e da sobrevivência civil.






















