Sudão — Em um movimento tático que altera momentaneamente o tabuleiro da guerra, o Exército Nacional anunciou ter rompido o cerco imposto pelas RSF à cidade de Kaloqi, reabrindo rotas essenciais para suprimentos. A tomada de iniciativa foi saudada por habitantes locais que, após meses de isolamento, finalmente conseguiram acesso a alimentos, combustíveis e ajuda médica. Simultaneamente, porém, diversas áreas do Kordofan Meridional foram alvo de novos bombardeios, com vítimas civis e danos a infraestruturas já fragilizadas.
O anúncio foi feito pelo chefe das forças armadas, Abdel Fattah al-Burhan, que informou que as principais vias de abastecimento foram reabertas para permitir a chegada de mantimentos e assistência. “Congratulações ao nosso povo pela chegada das forças armadas”, declarou al-Burhan, ressaltando a intenção do Exército de restabelecer o controle sobre todo o território nacional. Moradores de Kaloqi relataram celebrações contidas com a chegada dos soldados, depois de um período marcado por fome e carência de bens essenciais.
As RSF haviam assumido posições em Kaloqi há cerca de dois anos, em aliança com o Movimento de Libertação do Povo do Sudão-Norte (SPLM-N). Na semana anterior, o Exército já havia anunciado a libertação de Dilling, cidade situada a aproximadamente cem quilômetros ao norte de Kaloqi, um avanço que descreve uma pressão coordenada sobre os eixos de poder no sul do país. Até o momento, as RSF não emitiram comentário oficial sobre a reversão do cerco.
Paralelamente à notícia de alívio em Kaloqi, fontes locais registraram ataques aéreos e ataques com drones em diversas localidades do Kordofan Meridional. Entre os incidentes relatados estão impactos em mercados, infraestrutura civil e, segundo relatos, ataques que teriam atingido o quartel-general da 54ª Brigada do Exército e o mercado central da região — alvos que resultaram em dezenas de mortos e feridos. A população permanece presa entre linhas de confronto, deslocamentos forçados e falta crônica de bens básicos.
O quadro humanitário segue alarmante. Autoridades sanitárias do país estimam que, apenas nas estruturas de saúde, foram registrados cerca de 33 mil óbitos em três anos de conflito, número que, segundo o ministro da Saúde, não reflete a contabilidade total das vítimas devido à impossibilidade de monitoramento em zonas de guerra. Organizações internacionais já qualificaram a situação em várias áreas como condição de fome, com milhões de deslocados e uma cifra aproximada de 150 mil mortos desde abril de 2023.
Ao analisar o movimento das forças, é possível detectar um padrão de “redesenho de fronteiras invisíveis”: cada avanço ou recuo desempenha um papel na tectônica de poder que definirá disponibilidade de acessos logísticos e linhas de influência regional. Romper um cerco não equivale automaticamente a segurança estável — a guerra no Sudão permanece um tabuleiro em que ganhos pontuais podem ser revertidos por ataques assimétricos, como o uso de drones e operações de guerrilha.
Do ponto de vista diplomático e humanitário, a reabertura de rotas para Kaloqi é um alívio necessário, mas insuficiente se não vier acompanhado de corredores contínuos de ajuda e de um acordo mínimo de proteção civil. A arquitetura frágil da paz no Sudão exige, agora, maior coordenação entre atores locais e mediadores internacionais para evitar que conquistas pontuais se transformem em meros movimentos temporários num jogo muito mais amplo e letal.






















