Por Marco Severini — Espresso Italia
A recente e violenta escalada nos estados de Jonglei, Unity e Equatoria empurrou mais de 825.000 crianças do Sudão do Sul para a borda da malnutrição aguda, segundo o último alerta do UNICEF. O quadro humanitário e de segurança do país — o mais jovem do mundo, independente desde 2011 — deteriorou‑se rapidamente nas últimas semanas, configurando um movimento decisivo no tabuleiro que ameaça a estabilidade regional.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas manifestou “grave preocupação” com o recrudescimento dos confrontos, especialmente em Jonglei e na Equatoria oriental, e pediu a todas as partes que reduzam imediatamente as tensões e cessem as hostilidades. Em sua análise, o Conselho assinala que as violações do acordo de paz de 2018 comprometem a estabilidade nacional e ampliam as necessidades humanitárias num contexto já fragilizado.
Em Jonglei, o UNICEF contabiliza pelo menos 280.000 pessoas deslocadas, a maioria mulheres e crianças; estima‑se que cerca de 53% dos deslocados sejam menores. Para muitos refugiados internos trata‑se da segunda ou terceira ruptura: famílias que abandonaram tudo e hoje dormem em campos improvisados ou no mesmo acampamento criado durante a guerra civil, onde os serviços essenciais são insuficientes e a cadeia de abastecimento humanitário está sob pressão.
Política e segurança convergem num padrão recorrente: o Sudão do Sul mergulhou em guerra civil em 2013 após a ruptura política entre o presidente Salva Kiir e o então vice‑presidente Riek Machar. Embora o pacto de 2018 tenha estabelecido um governo de unidade e reagrupado forças, as tensões entre as unidades governamentais SSPDF e o movimento SPLA‑IO ressurgem de forma gradual e persistente. Machar, indicado primeiro‑vice‑presidente no acordo de 2018, encontra‑se em prisão domiciliar desde março de 2025 e sob processo, um facto que altera os equilíbrios e dificulta a recomposição política.
O recrudescimento do conflito já provocou fluxos significativos de fuga — relatórios indicam centenas de milhares de civis em movimento — e pressiona as já frágeis infraestruturas humanitárias. Organizações de ajuda alertam para o risco imediato de colapso em setores essenciais: saúde materno‑infantil, abastecimento de água, saneamento e alimentação. A vulnerabilidade das populações deslocadas revela os alicerces frágeis da diplomacia e a urgência de reabrir canais de diálogo.
Autoridades religiosas e líderes comunitários também soaram o alarme. O cardeal Stephen Ameyu Martin Mulla, presidente da Conferência Episcopal do Sudão do Sul, expressou profunda preocupação com a ausência de implementação plena do acordo de 2018 e apelou, no fim de janeiro, ao diálogo, à unidade e à reconciliação. O apelo ecoa como uma tentativa de estabilizar um tabuleiro que, se deixado ao acaso, pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência e provocar uma nova etapa de violência.
Do ponto de vista estratégico, a situação no Sudão do Sul é um exemplo claro de como rupturas políticas internas e a erosão de mecanismos de paz transformam crises localizadas em emergências humanitárias de ampla escala. À comunidade internacional cabe agora uma postura firme: pressionar por cessar‑fogo imediato, garantir acesso humanitário protegido e reconstruir com urgência os canais de diálogo que possam restaurar, passo a passo, a estabilidade necessária para evitar uma catástrofe humanitária em larga escala.






















