Por Marco Severini — Um novo e doloroso capítulo na tectônica de poder que rasga o Sudão marcou-se esta semana com um ataque com drones atribuído às Forças de Suporte Rápido (RSF) contra a cidade estratégica de Dilling, no Kordofan Meridional. Fontes locais e operadores de saúde, citados pelo Sudan Tribune e por outros meios regionais, indicam que dezenas de civis perderam a vida e muitos ficaram feridos após alvos urbanos, entre os quais o mercado central da cidade, terem sido atingidos.
Segundo o relato, entre os alvos dos chamados drones suicidas estaria o quartel-general da 54ª Brigada do exército sudanês, além de instalações civis. O ataque ocorre apenas um dia depois do anúncio das Forças Armadas Sudanesas (SAF), alinhadas ao governo, de que romperam um cerco de quase dois anos sobre Dilling e restabeleceram rotas logísticas cruciais — um movimento que, no tabuleiro estratégico regional, representa um intento de recuperar linhas de abastecimento e influência.
Dilling tem-se situado como ponto de intersecção entre Kadugli, ainda sob cerco, e El-Obeid, capital do vizinho Kordofan Setentrional, onde as RSF também tentam projetar poder e cerco. Fontes militares ouvidas pelo Sudan Tribune afirmam que as RSF buscam restabelecer o bloqueio sobre a cidade, enquanto as SAF mantêm controle de áreas-chave e repeliram ataques nas proximidades de Habila, no Kordofan setentrional.
Organismos internacionais já vinham alertando para a elevada vulnerabilidade da população local. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos relatou que, apenas na primeira quinzena de dezembro, mais de 100 vidas civis foram ceifadas na região do Kordofan. Paralelamente, dados das Nações Unidas apontam que, desde outubro, mais de 65.000 pessoas fugiram dessa região, parte daquilo que a ONU descreve como a maior crise de deslocamento e fome no mundo.
Em tom urgente, a Sudan Doctors Network apelou pela abertura imediata de um corredor humanitário para permitir o envio de alimentos e medicamentos salvadores. Fontes médicas locais descrevem um quadro desesperador: hospitais sem insumos básicos — incluindo soluções endovenosas — e uma capacidade de resposta severamente comprometida.
Como analista, é imperativo ver este episódio para além do impacto imediato: trata-se de um movimento calculado no tabuleiro da luta pelo controle regional, onde o uso de drones transforma centros urbanos em alvos estratégicos e degrada os alicerces frágeis da diplomacia local. A espetrometria do conflito revela um redesenho de fronteiras invisíveis, em que corredores logísticos e mercados são tão valiosos quanto postos militares.
O apelo humanitário é claro e urgente. Sem garantia de segurança e acesso para ajuda, a crise humanitária no Kordofan Meridional tende a aprofundar-se, com implicações regionais: deslocamentos em massa, agravamento da fome e uma nova rodada de radicalização entre atores locais. A comunidade internacional e os mediadores regionais devem, com prudência e determinação, trabalhar para preservar corredores vitais e evitar que o tabuleiro se incline para um colapso de larga escala.
Fontes: Sudan Tribune, relatos locais, Sudan Doctors Network, Nações Unidas.






















