Por Marco Severini — A três anos do início do conflito que redesenha a tectônica de poder no Sudan, o ministro da Saúde, Haitham Mohammed Ibrahim, pintou um quadro severo e calculado: pelo menos 33 mil mortos foram contabilizados apenas nas estruturas de saúde do país. Esse número, disse o ministro em entrevista à Al Jazeera, é apenas a face visível de um desastre humanitário mais amplo, onde os alicerces frágeis da diplomacia e da assistência pública lutam para resistir ao choque contínuo do conflito.
Ibrahim destacou avanços pontuais nos estados do norte e do leste, áreas relativamente menos afetadas onde serviços básicos e especializados começam a reconectar-se. Entretanto, no Darfur e no Kordofan — campos onde o conflito é mais intenso e as linhas de acesso mais interrompidas — a população enfrenta barreiras quase intransponíveis ao atendimento primário. As prioridades de saúde pública, segundo o ministério, permanecem voltadas para emergências, contenção de epidemias e a assistência materno-infantil.
Em termos operacionais, o ministério admite que os recursos disponíveis cobrem menos de 30% das necessidades de saúde básica de uma população estimada em cerca de 30 milhões. É uma restrição que força escolhas duras: concentrar capacidades em cuidados de emergência e vacinação, enquanto vastas áreas rurais permanecem sem acesso regular a serviços essenciais.
O drama demográfico é acentuado por números alarmantes de deslocamento. Organizações humanitárias, como a Save the Children, relatam que, após mil dias de conflito, cerca de 12 milhões de pessoas estão deslocadas, com crianças pagando o preço mais alto — vítimas de assassinatos, estupros e violência em massa, até mesmo de lactentes. A conjuntura cria um cenário em que a saúde pública se entrelaça com proteção e segurança básica, exigindo respostas que ultrapassem o estrito espectro médico.
Entre os obstáculos citados pelo ministro estão o acesso às regiões remotas, em particular no Darfur e no Kordofan, e a escassez persistente de financiamento internacional e estatal. Os fundos disponíveis, explicou Ibrahim, são insuficientes para restabelecer uma rede mínima de atenção primária e sequer permitem uma reabilitação ampla de hospitais e centros de saúde danificados pelo conflito.
Da perspectiva estratégica, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro regional: a incapacidade de restaurar serviços básicos abre caminhos para instabilidades prolongadas, deslocamento permanente de populações e um redesenho de fronteiras invisíveis de influência — fatores que interessam tanto a atores regionais quanto à comunidade internacional.
O Ministério da Saúde direciona, por ora, seus esforços para áreas centrais como Khartoum, Sennar e outras regiões que recebem retornos significativos de deslocados. Mas, como advertiu Ibrahim, sem um aporte financeiro substancial — estatal e internacional — qualquer retomada será fragmentada e frágil.
Enquanto isso, as organizações de socorro exigem acesso humanitário ampliado e proteção para civis, especialmente mulheres e crianças, cuja exposição à violência aumenta sem sinal de abrandamento. O apelo é claro: estabilizar serviços de saúde e proteger populações vulneráveis são movimentos essenciais para evitar que o conflito se torne um novo capítulo de catástrofe demográfica e institucional.
Na cartografia das prioridades internacionais, o Sudan permanece um ponto sensível. A resposta que a comunidade internacional e os poderes regionais escolherem dará forma — nas próximas jogadas — a um equilíbrio de poder cuja duração e consequências ainda são incertas.






















