Por Marco Severini — A morte ou incapacidade súbita de uma Guia Suprema no Irã não é apenas um evento pessoal: é um movimento decisivo no tabuleiro institucional de uma República moldada por sobreposições teológicas e estruturas constitucionais. A Constituição iraniana, no seu artigo 111, prevê um mecanismo provisório: um conselho de três nomes — o presidente, o chefe da magistratura e um membro do Conselho dos Guardiões escolhido pelo Conselho de Discernimento — assume interinamente as funções da liderança máxima até a nomeação de um novo líder.
Esse artifício, no entanto, carrega fragilidades cruciais. A nova Guia Suprema deve ser escolhida pela Assembleia dos Especialistas, um corpo clerical formado por 88 religiosos eleitos para mandatos de oito anos. Em teoria, a Assembleia tem a responsabilidade e a legitimidade para designar o sucessor “o mais rapidamente possível”. Na prática, o processo é condicionado pelo crivo prévio do Conselho dos Guardiões, que, nas eleições de 2024, confirmou uma bancada inteiramente alinhada à atual liderança.
A lei prevê que a escolha exija uma maioria qualificada: se nenhum candidato alcançar os dois terços, o conselho interino permaneceria — em termos legais, poder-se-ia alongar essa administração temporária por tempo indeterminado. É nesse entrelaçar de prazos vagos e maiorias qualificadas que reside o perigo de um vazio de poder.
O quadro ganha contornos mais inquietantes diante de relatos segundo os quais, nos recentes ataques atribuídos a forças israelenses e norte-americanas, teriam sido mirados também o presidente Massoud Pezeshkiane e o chefe da magistratura Gholam-Hossein Mohseni Ejei — dois dos três integrantes do conselho que, constitucionalmente, deve governar no interregno. Se ambos fossem eliminados, a sucessão legal sofreria um abalo severo, criando um vácuo institucional com capacidade de paralisar decisões estratégicas imediatas do sistema de governo iraniano.
Essa possibilidade projeta um cenário em que os alicerces da diplomacia iraniana ficam expostos: sem um núcleo executivo claramente definido, a tomada de decisões em matéria de segurança, política externa e comando militar poderia ficar sujeita a atrasos, lutas internas ou a nomeações apressadas destinadas a restaurar a ordem. A tectônica de poder interna, já marcada por faixas de lealdade e por uma cartografia de influência entre clero, instituições de segurança e órgãos de controle, correria risco de um redesenho súbito e desordenado.
Do ponto de vista estratégico, o potencial vácuo não é apenas um problema doméstico do Irã; é uma incógnita para seus vizinhos e para atores globais que calculam movimentos com base em certezas institucionais. Assim como no xadrez de alto nível, a perda repentina de uma peça-chave pode obrigar a um reposicionamento tático que reverbera por todo o tabuleiro regional.
Em síntese: a arquitetura constitucional iraniana contém mecanismos de sucessão, porém não oferece garantias contra cenários de ruptura simultânea das figuras que compõem o conselho interino. A combinação de regras vagas sobre prazos, a necessidade de maioria qualificada e a concentração de vetos em instâncias controladas pelos fiéis da liderança cria um espaço onde um vazio de poder é uma possibilidade concreta — com implicações estratégicas profundas para a estabilidade regional.






















