Por Marco Severini — Entre os milhões de páginas que constituem a última tranche de documentos divulgados no âmbito da investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre Jeffrey Epstein, surge uma imagem que chamou atenção internacional: o físico britânico Stephen Hawking aparece fotografado ao lado de duas mulheres que, segundo reportagens, eram suas cuidadoras.
A fotografia foi encontrada entre mais de 3,5 milhões de arquivos tornados públicos. A família de Hawking esclareceu que o registro data de um simpósio científico realizado em 2006 no hotel cinco estrelas Ritz-Carlton de St. Thomas, ocasião em que o cientista proferiu uma conferência sobre cosmologia quântica. O evento ocorreu cerca de cinco meses antes de Epstein ser formalmente acusado de favorecimento à prostituição de menores.
Documentos e postagens ligados à Jeffrey Epstein Foundation indicam que, na sequência do simpósio “Energy of the Vacuum that is not Zero”, um grupo de cerca de 21 cientistas visitou a ilha privada ligada a Epstein, a Little Saint James, nas Ilhas Virgens. Fotos já divulgadas em anos anteriores mostravam Hawking em ambientes externos com outros convidados e também participando de um passeio em um submersível nos arredores da ilha — um equipamento que, segundo relatos, foi adaptado para permitir o acesso do cientista em sua cadeira de rodas.
Nos arquivos recentes, o nome de Stephen Hawking aparece em torno de 250 referências. Importa ressaltar com rigor analítico que a citação de um indivíduo em dossiês relacionados a investigações complexas não constitui, por si só, prova de ilicitude. Não há, até o presente momento, registros fotográficos ou documentais que mostrem Hawking em interação direta com Epstein, nem evidência de envolvimento em atos criminosos por parte do cientista.
Hawking, que faleceu em 2018 aos 76 anos, conviveu por mais de cinco décadas com a ELA (esclerose lateral amiotrófica). Em 2006, ano do simpósio, ele havia se separado de sua segunda esposa, Elaine Mason; anteriormente, fora casado com Jane Hawking por 30 anos, com quem teve três filhos.
Relatos do New York Times e de demais veículos descrevem a estratégia de Epstein em se apresentar como filantropo e em cultivar laços com figuras proeminentes das ciências e das humanidades — de Stephen Jay Gould a Oliver Sacks, de George M. Church a Frank Wilczek. Esse padrão de aproximação revela uma faceta da geopolítica das redes de influência contemporâneas: a construção de soft power através de patrocínios e encontros discretos, que operam como movimentos no tabuleiro de poder internacional.
Do ponto de vista estratégico, a presença de nomes ilustres em listas e fotos implica um desafio para a percepção pública e para as instituições: a fragilidade dos alicerçes da diplomacia acadêmica quando expostos a suspeitas, e a necessidade de separar, com método e prudência, associação de responsabilidade. A tectônica de poder se redesenha não apenas por ações comprovadas, mas também pelo impacto reputacional que arquivos públicos podem infligir a figuras e instituições.
Em suma, a imagem de Hawking nos arquivos de Epstein reabre um debate essencial: como interpretar a presença de intelectuais em redes financiadas por personagens controversos, e qual o limite entre convivência profissional, dependência logística e responsabilidade ética? A resposta exige investigação cuidadosa, não conclusões precipitadas — um movimento de xadrez que exige paciência, evidências e prudência.






















