Por Marco Severini — A decisão do primeiro-ministro Keir Starmer de nomear o Lord Peter Mandelson embaixador britânico em Washington está a transformar‑se num movimento de alto custo no tabuleiro político: uma crise que põe em xeque o julgamento do líder do governo e fragiliza os alicerces da diplomacia doméstica.
Ao centro das críticas está a defesa inicial de Starmer, que declarou ter acreditado “pela palavra” nas garantias do veteranoparlamentar sobre os seus contactos com o financista Jeffrey Epstein. Segundo apurou o Times, antes do anúncio teria chegado a Downing Street um relatório de duas páginas do Cabinet Office com informações consideradas relevantes sobre os laços entre Mandelson e Epstein.
O documento, conforme as fontes, apontava que o ex‑ministro teria estado no apartamento nova‑iorquino do financista mesmo durante o período em que este estava detido por crimes sexuais contra menores. Apesar da gravidade da indicação, não foram tomadas verificações suplementares e a nomeação foi publicada antes do término dos controlos de segurança mais aprofundados — um procedimento que, por norma, funciona como muralha defensiva contra riscos reputacionais e de segurança.
A revelação alimentou um debate sobre o critério decisório do primeiro‑ministro. Starmer admitiu ter aceite uma versão dos factos que depois se revelou falsa, atitude que a oposição conservadora e uma corrente dentro do próprio Partido Trabalhista consideram incompatível com a responsabilidade inerente ao cargo. “É uma questão de julgamento”, afirmam os críticos, que veem no episódio um risco para a credibilidade do executivo.
Mesmo sob forte pressão, Starmer descartou a hipótese de demissão. “Vou continuar”, declarou, assumindo a responsabilidade política pelo erro. Num pronunciamento público na Inglaterra, o primeiro‑ministro pediu desculpas pela nomeação e justificou que afastou Mandelson assim que se tornou claro que as informações fornecidas não correspondiam à realidade. “Um engano deste tipo é incompatível com o serviço público”, sublinhou, reafirmando que ninguém está acima dos princípios de responsabilidade e honestidade.
O episódio teve também reflexos económicos. Num clima de incerteza política, potencializado pela expectativa em torno da decisão do Bank of England sobre taxas de juro, a libra registou uma desvalorização significativa, cedendo terreno face ao dólar e ao euro — um sinal da sensibilidade dos mercados a choques políticos que alterem o mapa de confiança institucional.
Paralelamente, o ex‑embaixador encontra‑se agora sob investigação policial no Reino Unido. As autoridades estão a apurar a suspeita de que, durante o seu mandato no governo entre 2008 e 2010, Mandelson possa ter partilhado com Epstein informações financeiras sensíveis — uma linha de inquérito que pode manter elevada a pressão sobre Downing Street por tempo prolongado.
Num tabuleiro onde cada peça representa reputação, influência e risco, a administração de Starmer enfrenta agora o desafio de reconstruir a autoridade do executivo sem ceder ao imediatismo da narrativa pública. A tectónica de poder mudou, mas a estabilização exigirá passos calculados e verificações rigorosas: uma lição sobre como a arquitetura das decisões governamentais depende tanto de processos invisíveis quanto de figuras públicas visíveis.






















