Por Marco Severini — No dia em que os roteiros românticos ganham destaque, constata-se um curioso silêncio nos corredores palacianos: o cupido parece ter perdido a mira junto às casas reais. Jovens, privilegiados, educados em centros académicos de elite e com currículos de formação exigente, permanecem solteiros. O fenômeno, porém, não é mera anedota social; é um movimento que reflete os imperativos institucionais e a tectônica de poder que redesenha, discretamente, as prioridades dinásticas.
À frente desta fila de «scapoli d’oro» está Elisabeth da Bélgica, herdeira aparente com 23 anos, formada entre Oxford e Harvard, que cultiva um perfil deliberadamente reservado. Em termos protocolares, a transparência privada é uma moeda cara: nenhuma relação pública, nenhum rumor confirmado. O silêncio funciona como fortificação — uma prevenção contra distrações e contra a exposição que enfraquece o jogo institucional.
Idêntica disciplina observamos em Catharina-Amalia dos Países Baixos, também com 23 anos. A princesa de Orange, protegida por rígidos protocolos de segurança após ameaças, alternou estudos na Universidade de Amsterdã e um retorno apressado ao palácio. Dizem que possui intuição política e apreço por tiaras; suas irmãs, Alexia e Ariane, igualmente discretas, compõem um trio reservado e sem afilhados públicos do amor.
O propósito feminino das successões torna-se mais claro na Noruega, onde Ingrid Alexandra surge como herdeira destinada a escrever um marco: será a primeira rainha reinante desde Margarida I da Dinamarca (1388-1412). Não é casual que as monarquias europeias mostrem hoje um viés mais «rosa» na linha de sucessão — um realinhamento histórico que altera expectativas e agendas pessoais.
O silêncio afetivo atinge também os príncipes. Entre eles, destaca-se Christian da Dinamarca, jovem herdeiro que já cumpriu serviço militar e goza de popularidade. Questionamentos sobre laços amorosos — como a alegada ligação com Maria Chiara de Bourbon das Duas Sicílias — foram objeto de especulação que as Casas Reais mantiveram sem confirmação.
Na Espanha, a presença pública é outra tática: Leonor das Astúrias, primogênita de Felipe VI e Letizia Ortiz, tornou-se figura central ao ingressar na academia militar, após passagem pelo UWC Atlantic College no País de Gales. Renunciou ao salário dos cadetes em Saragoça, sinalizando uma disciplina institucional que antepõe dever a interesse privado. Com ela, a Espanha prepara-se para ter uma monarquia feminina, depois de um século e meio.
Em resumo, não se trata de frieza nem de escassez de pretendentes, mas de prioridade estratégica: entre estudos, serviço e um futuro já designado pelos protocolos, o item amor fica frequentemente relegado a plano secundário. No tabuleiro do poder, cada movimento afetivo é calculado — e quando Cupido recuperar a forma, as cortes europeias certamente produzirão narrativas dignas de um épico dinástico. Até lá, a diplomacia privada segue trançando defesas discretas e alicerces cautelosos.






















