Marco Severini — Em um movimento que reordena momentaneamente um dos tabuleiros humanos mais dramáticos da atualidade, surge uma história que questiona os alicerces da certidão de óbito em tempo de guerra. O soldado Nazar Daletskyi, dado como morto e enterrado em um cemitério do oeste da Ucrânia, foi encontrado vivo e libertado na última troca de prisioneiros entre Moscou e Kiev. A confirmação veio em vídeo divulgado pela BBC, no qual Nazar fala por telefone com a mãe, Nataliya, e com familiares, desencadeando uma emoção que mistura alegria e incredulidade.
O episódio é, ao mesmo tempo, um drama humanitário e um problema técnico-institucional: como um corpo foi identificado como o de Nazar por meio de um exame de DNA — levando o município a celebrar funeral e a expor sua fotografia numa mostra dedicada aos heróis caídos — se o próprio combatente estava detido e vivo? A família havia recebido a notícia e realizado o enterro com base na identificação de um corpo gravemente queimado, encontrado entre vítimas de um ônibus incendiado no sudeste ucraniano, em 2023.
A cronologia é clara e fria, como as linhas de um mapa estratégico. Quando a invasão russa em larga escala começou, em fevereiro de 2022, Nazar, então com 42 anos, retornou ao front — onde já havia lutado em 2014. Em maio daquele ano ele desapareceu em combate. Em 2023, com um perfil de identificação que parecia definitivo, as autoridades informaram a família de sua morte. Só agora, três anos e nove meses depois do desaparecimento, um desenlace humano alterou a narrativa oficial: libertado em um recente pacote de trocas, Nazar conseguiu fazer a ligação que dissolveu a sepultura simbólica erguida em sua memória.
O registo da chamada, compartilhado pela BBC, é dura e protetora como a voz de mãe. Nataliya pergunta, com preocupação instintiva: ‘Você tem braços, pernas, tudo?’, ao passo que a prima, Roksolana, grita e salta de alegria. A família retirou das redes sociais imagens do funeral e a fotografia exibida na mostra de combatentes caídos. Ao mesmo tempo, autoridades militares e forenses abriram uma investigação para apurar como uma identificação tão errônea foi formalizada.
Este caso expõe fragilidades na gestão de mortos e desaparecidos em zonas de guerra — fragilidades que se traduzem em decisões com impacto profundo sobre famílias e memória coletiva. No plano estratégico mais amplo, é um lembrete de que a guerra não é apenas confronto de forças, mas também disputa sobre relatos, registros e legitimidade. Em termos geopolíticos, movimentos como este — libertações e trocas — funcionam como pequenos, porém decisivos, lances numa partida com muitas peças: realinhamentos táticos que podem aliviar tensões pontuais sem, contudo, alterar a tectônica de poder que sustenta o conflito.
Enquanto a família de Nazar se prepara para o reencontro físico, a investigação buscará responsabilidades pelo erro que levou ao enterro de um homem vivo. No tabuleiro da história, cada peça recuperada é também um espelho do estado das instituições; e o retorno de Nazar é, acima de tudo, um apelo à revisão dos procedimentos forenses e administrativos em contexto de guerra.






















