Por Marco Severini – Em um movimento que redesenha sutis linhas no tabuleiro geopolítico regional, o Primeiro-ministro Wong apresentou a proposta da financiária de 2026 onde a Inteligência Artificial assume o papel de pilastro fundamental para o crescimento nacional. A arquitetura da nova estratégia pública combina ambição tecnológica com uma leitura realista das fragilidades estruturais do país.
O orçamento prevê a alocação de mais de um bilhão de dólares de Singapura (aproximadamente 700 milhões de euros) destinados ao fortalecimento do ecossistema tecnológico e das infraestruturas dedicadas até 2030. A meta declarada é transformar a cidade-Estado em um hub global de inovação, aproveitando a IA como vantagem comparativa no momento em que o equilíbrio do poder econômico mundial se reconfigura.
Wong justificou a aposta na Inteligência Artificial como resposta aos limites estruturais de Singapura — recursos naturais escassos, população em envelhecimento acelerado e um mercado de trabalho com restrição de oferta — e como instrumento para contornar tais constrangimentos sem sacrificar coesão social. Em sua exposição, o primeiro-ministro sublinhou sinais claros de fragilidade na economia global e comentou que, apesar de um crescimento de 5% no ano anterior, a previsão agora aponta para uma expansão entre 2% e 4%, com inflação entre 1% e 2%.
No desenho institucional, o plano cria um Conselho Nacional para a IA, presidido pelo próprio Wong, e institui as chamadas “Missões IA” para setores estratégicos — saúde, finanças e manufatura avançada — visando resolver problemas concretos por meio de pesquisas orientadas e implantação rápida de soluções.
Entre as medidas econômicas mais relevantes, destaca-se a dedução fiscal de 400% para despesas empresariais em tecnologia e inovação, que funciona como incentivo direto ao investimento privado em digitalização. Para a força de trabalho, há oferta de seis meses de acesso gratuito a ferramentas premium de IA para cidadãos que se engajarem em programas de formação específica, estratégia pensada para mitigar o impacto da automação e preservar a competitividade das empresas singapurenses no mercado global.
Em termos de política social e de segurança, a manobra busca reforçar o “pacto social” — apoio a famílias, segurança e sustentabilidade — enquanto nutre uma força de trabalho resiliente e qualificada. A retórica do governo combina pragmatismo econômico com apelos à renovação do espírito nacional, um pedido de atualização dos alicerces da diplomacia econômica e da coesão interna.
Do ponto de vista estratégico, é uma jogada calculada: Singapura não apenas investe em tecnologia, mas tenta consolidar um eixo de influência baseado na excelência operacional e na governança adaptativa. Em termos de cartografia geopolítica, trata-se de mover uma peça cujo alcance pode redesenhar fronteiras invisíveis do poder econômico na Ásia.
Conclusivamente, a iniciativa revela uma visão de longo prazo — uma arquitetura de Estado voltada a colocar a Inteligência Artificial nos alicerces da competitividade nacional, ao mesmo tempo em que procura blindar a sociedade contra os choques externos e as disrupções tecnológicas.






















