Por Marco Severini — No xadrez contemporâneo da guerra assimétrica, alguns movimentos aparentam simplicidade e, ainda assim, mudam posições inteiras do tabuleiro. O Shahed-136 é isso: um veículo aéreo rudimentar, de desempenho modesto, porém eficaz em sua função, que se transformou em peça-chave da indústria militar do Irã e em protagonista nos palcos de conflito recentes.
Produzido pela Iran Aircraft Manufacturing Industrial Company (empresa submetida a sanções dos Estados Unidos), o drone Shahed-136 é um loitering munition — conhecido popularmente como drone «kamikaze» — projetado para colidir com o alvo e detonar. Sua arquitetura é simples: 3,5 metros de comprimento, envergadura de 2,5 metros, velocidade máxima em torno de 185 km/h e, segundo o Ministério da Defesa britânico, um alcance declarado de até 2.500 km. A fuselagem em delta carrega uma ogiva de cerca de 36 kg.
Operacionalmente, o Shahed voa em baixa altitude, traço que reduz sua assinatura frente a radares convencionais e aumenta a dificuldade de detecção. Os lançamentos ocorrem a partir de uma plataforma capaz de organizar até cinco unidades em sequência; a decolagem é assistida por um impulso de foguete e, ao atingir a cota pré-programada, passa a ser sustentada por um motor convencional. São máquinas ruidosas, porém econômicas — atributos que as tornam adequadas para ataques massivos em rajadas.
Os Guardas Revolucionários (Pasdaran) aproveitaram a imagem propagandística desses equipamentos: vídeos com túneis e estruturas logísticas exibidos em campanhas públicas realçam não apenas a disponibilidade dos sistemas, mas o propósito estratégico do seu emprego como vetor de projeção de poder por meios relativamente baratos.
Em campo, o Shahed-136 mostrou-se útil nas mãos de usuários como a Rússia no teatro ucraniano, onde competiu com plataformas mais sofisticadas e velozes, como o Bayraktar TB2, fornecido pela Turquia à Ucrânia e determinante em fases iniciais do conflito. A comparação é reveladora do que chamo de “tectônica de poder” tecnológica: por um lado, sistemas caros e precisos; por outro, multiplicação em massa de soluções acessíveis que alteram o equilíbrio de custo-benefício nas campanhas.
Segundo Justin Bronk, pesquisador sênior do think tank Royal United Services Institute (RUSI), o Shahed-136 oferece um meio relativamente econômico de conduzir ataques de longo alcance contra alvos fixos. Sua navegação e precisão dependem de sistemas de GPS comercial, e a limitação da carga reduce sua capacidade de destruição. Falta-lhe, ainda, a eficácia para atingir alvos móveis e mecanismos robustos de auto-defesa contra sistemas anti-UAV.
Oficialmente em serviço no Irã desde 2021, há indicações de uso operacional já em 2020 no Iêmen, o que evidencia uma curva de adoção prévia à formalização. Na visão estratégica, o Shahed-136 representa um movimento calculado: em vez de dominar por sofisticação isolada, busca saturar o espaço aéreo e forçar o adversário a dispersar recursos, revelando os alicerces frágeis da diplomacia e da defesa convencional em cercos prolongados.
Como analista, percebo que a difusão desses drones projeta um redesenho de fronteiras invisíveis — não geográficas, mas de capacidade e custo — onde atores estatais e proxies conseguem, com tecnologia relativamente acessível, exercer influência além de suas fronteiras imediatas. No tabuleiro de hoje, a simplicidade bem aplicada é, com frequência, o movimento decisivo.


















