Por Marco Severini — Em uma visita de Estado que reveste-se de significado geopolítico, o presidente sul-coreano Lee Jae-myung solicitou publicamente que a China assuma um papel de mediação nas delicadas questões da península coreana, com ênfase no sensível capítulo do programa nuclear da Coreia do Norte. A declaração foi feita em Xangai, durante um almoço com jornalistas, na sequência do encontro bilateral em Pequim com o líder chinês Xi Jinping.
Segundo relatos oficiais divulgados pela agência Yonhap, Xi Jinping sublinhou que o dossiê relativo a Pyongyang exige paciência. Lee, por sua vez, expôs com clareza o pedido: que a China sirva como ponte entre as partes para reiniciar um diálogo atualmente interrompido e marcado por “zero confiança”.
O presidente sul-coreano diagnosticou um ambiente de hostilidade crescente entre as duas Coreias e criticou ações militares ofensivas que — na sua leitura — teriam deixado o Norte em situação de ansiedade elevada. Sob uma ótica de estratégia diplomática, propôs um compromisso pragmático: um congelamento do programa nuclear norte-coreano em troca de formas de compensação verificáveis.
Na proposta apresentada por Lee, o congelamento abrangeria a não produção de novas armas, a abstenção de transferências de material nuclear para o exterior e a suspensão do desenvolvimento de novos mísseis intercontinentais. Este estado estacionário, afirmou, já representaria um “vantagem significativa” para a estabilidade regional, enquanto o objetivo de longo prazo permanece a completa desnuclearização da península.
Xi Jinping teria indicado disponibilidade para “engajar-se no papel de mediador”, em consonância com as avaliações trazidas por Seul. A interlocução de Pequim é percebida por Seul como um movimento estratégico no tabuleiro asiático: manter a centralidade chinesa no manejo de Pyongyang ao mesmo tempo em que se preserva o alinhamento estratégico com os Estados Unidos. Lee descreveu esta postura como pragmática, um equilíbrio entre segurança e interesses econômicos.
Além do eixo segurança, a visita incluiu um robusto capítulo econômico e industrial: fóruns sobre inteligência artificial, energia verde, cadeias de abastecimento e turismo, culminando na assinatura de mais de dez memorandos de cooperação. Esses passos econômicos servem de alicerce a uma relação que Seul deseja tornar previsível e funcional, reduzindo o espaço para choques inesperados na região.
Num gesto de cortesia pessoal que ganhou dimensão simbólica, durante o jantar de Estado Lee Jae-myung e sua esposa Kim Hea-kyung fizeram um selfie com Xi Jinping e Peng Liyuan usando um smartphone Xiaomi — presente ofertado por Xi no encontro anterior em Gyeongju. O episódio ilustra como a diplomacia contemporânea combina rituais de proximidade pessoal com negociações de alto risco.
Como analista da arquitetura internacional, vejo a iniciativa sul-coreana como um movimento calculado no tabuleiro: convidar a China a mediar equivale a deslocar a tensão para um espaço onde Pequim tem influência decisiva sobre Pyongyang, ao mesmo tempo em que Seul preserva seus vínculos com Washington. Trata-se de uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis de influência sem provocar uma ruptura aberta entre grandes potências — um exercício de Realpolitik ao qual só a paciência e a precisão operacional podem dar substância.































