Marco Severini para Espresso Italia — O retorno do sarampo ao centro das atenções sanitárias revela um movimento decisivo no tabuleiro da saúde pública global. Entre cartas oficiais e alertas para viajantes, dois episódios recentes ilustram como a doença transita entre fluxos humanos e instituições: um foco escolar ao norte de Londres e uma exposição registada no terminal internacional de Filadélfia, nos Estados Unidos.
No Reino Unido, o Conselho de Enfield, área afetada por um surto da doença altamente contagiosa, remeteu uma carta a todos os pais do distrito. A comunicação informa que crianças não vacinadas que sejam identificadas como contatos estreitos de casos confirmados poderão ser excluídas da escola por até 21 dias. Trata-se de uma medida clássica de contenção, que visa cortar linhas de transmissão antes que o foco se torne uma epidemia local.
Nos EUA, as autoridades estaduais de saúde emitiram um alerta após a passagem de uma pessoa infectada pelo Terminal E do aeroporto internacional de Filadélfia. O trânsito do viajante foi registrado em 12 de fevereiro, entre 13h35 e 16h30. O Departamento de Saúde Pública estadual notificou possíveis expostos, recomendando verificação do estado vacinal e vigilância por sintomas, sem, porém, caracterizar uma ameaça generalizada.
Palak Raval-Nelson, comissária da Saúde do estado, explicou que apesar de não se esperar uma ameaça imediata de larga escala, muitos países enfrentam surtos, mantendo o risco associado a viagens. O conselho é claro: vacinar crianças segundo o calendário, checar sorologia e consultar o médico antes de viagens a áreas com grandes focos.
O infecologista Matteo Bassetti sintetizou o quadro com linguagem direta e crítica em redes sociais, qualificando os EUA como o ‘Measles country’ em razão do retrocesso vacinal impulsionado por correntes negacionistas e por decisões políticas. Bassetti foi além ao sugerir que, se o panorama sanitário fosse exigente, poderia-se requerer prova de vacinação de viajantes americanos para entrada na Itália. É um comentário que, mais do que alarme, funciona como uma proposta de sanidade diplomática: proteger fronteiras epidemiológicas é também uma questão de responsabilidade mútua entre Estados.
O começo de 2026 trouxe reveses que não se restringem às Américas. Seis países europeus, incluindo Espanha e Reino Unido, perderam o estatuto de livres do sarampo. O Canadá teve perda oficial desse status em novembro. Em abril, a situação de Estados Unidos e México será submetida à análise internacional. São sinais de uma tectônica de poder sanitário em mutação, onde ganhos prévios de eliminação podem ser revertidos por falhas de cobertura vacinal e por fluxos transnacionais pouco regulamentados.
Para famílias, operadores de saúde e decisores, a recomendação é prática e urgente: seguir estritamente os programas de imunização, atualizar registros, verificar sorologia antes de viagens e adotar medidas de contenção quando houver exposição. No xadrez da saúde pública, cada peca vacinal ausente cria abertura para movimentos adversos; a defesa coletiva passa por vacinação e vigilância, alicerces frágeis que hoje exigem reforço.






















