Sandro Gozi, eurodeputado do grupo Renew Europe, lançou-se como candidato ao Conselho de Paris com um objetivo explícito: transformar a sua campanha num instrumento para promover a cidadania europeia e aproximar as oportunidades de Bruxelas da vida cotidiana dos parisienses. Em entrevista à AGI, Gozi sublinha que a sua iniciativa conta com o apoio de Rachida Dati, hoje ministra da Cultura na França — uma aliança que, nas palavras do candidato, pretende ser prática e simbólica, um elo entre diferentes centros de decisão.
O primeiro turno está marcado para 15 de março, com um eventual segundo turno a 22 de março. Gozi explica que a sua candidatura nasce de duas prioridades complementares. A primeira é educacional e institucional: lembrar que cerca de 14 milhões de cidadãos europeus têm o direito de votar e ser eleitos em Estados-membros onde residem, tanto nas eleições europeias quanto nas locais, mas que poucos conhecem ou exercem esses direitos. “Quero encarnar a cidadania europeia, mostrar que a normalidade pode ser uma prática transnacional”, afirma.
A segunda prioridade tem um caráter urbano e programático. Gozi recorda que viveu em Paris por cerca de 15 anos, retornando em 2018, e sente-se responsável por responder às demandas de quem mora na cidade. Entre as preocupações que aponta estão a segurança, a mobilidade, a limpeza urbana e a gestão de resíduos — problemas que, segundo ele, comprometem o estatuto de Paris como capital global. O candidato refere-se também a um eleitorado europeu relevante na cidade: entre 90.000 e 100.000 residentes comunitários que podem ser interlocutores desta agenda.
Na visão de Gozi, a União Europeia oferece instrumentos e financiamento subutilizados que poderiam acelerar soluções locais: do financiamento de obras de renovação do metrô à economia circular, passando pelo desenvolvimento da economia digital, das ciclovias e de sistemas de transporte integrados. “Boa parte da renovação do metrô de Paris já contou com fundos regionais europeus”, observa, destacando que a presença de representantes locais empenhados é decisiva para traduzir políticas comunitárias em projetos palpáveis.
Posicionado como uma ponte entre Bruxelas e Paris, Gozi defende que a Europa não pode ser só um gabinete distante: precisa de “testemunhas, embaixadores e mandatários locais” que levem oportunidades para o nível municipal. Essa é, na sua leitura, uma jogada estratégica para fortalecer os alicerces frágeis da diplomacia europeia no terreno — uma espécie de movimento no tabuleiro que visa reequilibrar influência e execução.
Questionado sobre a sua continuidade no Parlamento Europeu em caso de eleição, Gozi responde com pragmatismo: a decisão dependerá do desenrolar da campanha e do resultado. A sua candidatura, ressalta, foi pensada inicialmente como um instrumento de mobilização e visibilidade para a causa da cidadania europeia, mais do que uma renúncia prévia ao mandato europeu.
Como analista que observa os fluxos de poder com a calma de um estrategista, vejo nesta candidatura um teste interessante da tectônica de influência entre instituições europeias e capitais nacionais: é uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis, aproximando decisões e recursos. Se bem-sucedida, poderá criar um precedente para que mais representantes europeus encarem mandatos locais como continuação — e não ruptura — do seu compromisso transnacional.
Marco Severini – Espresso Italia






















