Pedro Sánchez, primeiro‑ministro da Espanha, adotou nesta terça‑feira uma postura firme e estratégica ao recusar o uso das bases militares espanholas para eventuais ataques contra o Irã, apesar das duras reações públicas do presidente Donald Trump. Em um discurso televisivo dirigido à nação, Sánchez afirmou que não se pode “jogar à roleta russa com o destino de milhões de pessoas” e enfatizou que o país não será cúmplice de ações contrárias aos seus valores e interesses.
O episódio escalou após Trump declarar, em encontro com a imprensa e com o chanceler alemão Friedrich Merz, que “não quer ter nada a ver com a Espanha” e que havia pedido ao secretário ao Tesouro, Scott Bessent, para “interromper todo o relacionamento” comercial e não comercial com o país. A retórica de coerção econômica foi imediatamente recebida por Madrid com uma combinação de firmeza política e apelo ao direito internacional.
Na transmissão, Sánchez sintetizou a posição do seu governo em quatro palavras: “Não à guerra”. O tom não foi de ingenuidade, explicou o primeiro‑ministro, mas de coerência estratégica: defender o direito internacional e a paz é, segundo ele, a única linha compatível com a política externa que a Espanha tem mantido em crises como as da Ucrânia, de Gaza, da Venezuela e até mesmo na discórdia sobre territórios como a Groelândia.
Sánchez lembrou, com uma leitura histórica e quase cartográfica das consequências militares, que intervenções anteriores — como a invasão do Iraque — produziram efeitos colaterais duradouros: aumento do terrorismo jihadista, choque nos preços da energia e uma instabilidade sistêmica que redesenha, de modo perverso, as fronteiras invisíveis da ordem internacional. “As consequências deste ataque ao Irã são igualmente nebulosas e não conduzirão a um mundo mais justo”, advertiu, numa metáfora sobre os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea.
O primeiro‑ministro sublinhou ainda a missão dos governos: melhorar a vida das pessoas e fornecer soluções, não agravar problemas. “É inaceitável”, disse, que líderes incompetentes usem o “fumo da guerra” para encobrir falhas internas e enriquecer poucos. “Os únicos que ganham quando o mundo deixa de construir hospitais para fabricar mísseis são sempre os mesmos”, afirmou, numa imagem que remete à tectônica de poder que rege decisões geoestratégicas.
Madrid propõe uma estratégia de resposta diferente: cooperação com países da região que defendam a paz e o respeito pelo direito internacional — “duas faces da mesma moeda”, nas palavras de Sánchez — e apoio diplomático e material conforme necessário. O governo espanhol trabalhará em coordenação com os aliados europeus para construir uma resposta conjunta e eficaz.
A posição de Madrid recebeu manifestações de apoio na cena europeia. Fontes do Eliseu informaram que o presidente francês Emmanuel Macron contatou Sánchez para reiterar a “solidariedade europeia da França” diante das recentes ameaças de coerção econômica. Já o primeiro‑ministro britânico Keir Starmer, em um evento com a comunidade paquistanesa, respondeu indiretamente às pressões externas sem citar nomes, reafirmando que o Reino Unido não está envolvido em ataques que agravem o conflito.
Do ponto de vista estratégico, o episódio representa um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: um Estado aliado recusa ser plataforma logística para uma ação militar cujo desfecho é incerto, jogando-se não apenas com interesses imediatos, mas com a arquitetura de segurança coletiva. Madrid aponta, assim, para um redesenho de responsabilidades e limites em que o uso da força deve continuar subordinado ao direito e à busca por estabilidade duradoura.






















