Por Marco Severini — Espresso Italia
Na vanguarda de uma campanha eleitoral incomum e excepcionalmente curta, Sanae Takaichi, figura ultraconservadora e populista, emerge como protagonista de um momento de inflexão para o Japão. A votação antecipada marcada para 8 de fevereiro representa, nas palavras de muitos estrategistas, um teste sobre a capacidade do Partido Liberal-Democrata (PLD) de recuperar uma hegemonia que parecia se esboroar.
Como analista que observa o tabuleiro internacional com atenção de enxadrista, enxergo este episódio como um movimento ambicioso para recolocar peças centrais: estímulos fiscais robustos, apelo à ética do trabalho e à tecnologia japonesa, discursos contra a letargia da administração e advertências sobre vazamentos tecnológicos direcionados aos rivais — em especial, a China. A retórica de Takaichi tem fôlego populista, direta e eficaz para mobilizar eleitores urbanos e industriais, como observou seu comício em Kawasaki.
Contudo, há dimensões da governança que exigem mais do que aforismos carismáticos. A moeda nacional, o yen, experimentou volatilidade acentuada durante seu breve exercício do poder, e os rendimentos dos títulos atingiram patamares inéditos. Esses são sinais claros de que a translação do fervor eleitoral para a gestão macroeconômica não é automática. Os alicerces fiscais do país permanecem frágeis: a economia precisa de estímulos, mas também enfrenta vulnerabilidades demográficas e de confiança.
No plano externo, as declarações precipitadas sobre um possível envolvimento militar do Japão em torno de Taiwan inquietaram Pequim e reacenderam dúvidas sobre a previsibilidade da política externa japonesa. Num mundo onde as fronteiras de influência se redesenham com rapidez, qualquer ruído diplomático pode transformar-se em efeito dominó. Para um arquiteto de poder — e Takaichi, segundo relatos de sua cúpula, almeja posicionar-se num papel de predomínio histórico —, gerir esse equilíbrio será a prova de fogo.
Seus aliados a comparam a Margaret Thatcher, e seu mentor político, o falecido Shinzo Abe, deixou uma sombra poderosa. Mas a estratégia que triunfa nas praças de campanha nem sempre subsiste ao primeiro confronto com a complexidade do Executivo: política fiscal, mercados financeiros e segurança regional exigem coordenação institucional, não apenas autoridade pessoal.
Os eleitores, consoante as pesquisas, parecem respaldá-la com uma maioria capaz de promover mudanças profundas. Mas a questão que permanece é esta: pode Takaichi governar sozinha — isto é, com autonomia suficiente para implementar reformas estruturais sem comprometer a estabilidade interna e as relações externas vitais do Japão? A resposta não será apenas política, será estratégica. Governar um arquipélago tão exposto às correntes da economia global e à proximidade de grandes potências requer uma arquitetura diplomática e econômica que harmonize ambição com prudência.
Em suma, a ascensão de Takaichi constitui um movimento decisivo no tabuleiro político japonês. Se o PLD recuperar vigor, teremos um redesenho de influências dentro do próprio partido e possivelmente na região. Mas transformar impulso de campanha em governabilidade duradoura dependerá do domínio das peças técnicas do Estado: finanças públicas sólidas, gestão da moeda e contenção de riscos geoestratégicos. A história mostra que líderes capazes de combinar visão e disciplina institucional tendem a consolidar-se; os demais acabam como peças deslocadas de um tabuleiro reconstituído pelas forças maiores do tempo.





















