Por Marco Severini — Em mais um movimento no intricado tabuleiro da diplomacia, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou que um novo ciclo de negociações trilaterais sobre a Ucrânia está previsto para “a próxima semana”, mas advertiu que seria um equívoco esperar resultados imediatos: “há temas complexos sobre a mesa”. Peskov também afirmou que, por ora, não está agendada qualquer conversa direta entre Vladimir Putin e o presidente americano Donald Trump.
Questionado sobre datas precisas, Peskov respondeu que não podia fornecê‑las no momento, ressaltando que os atuais canais de diálogo com a parte americana permitem coordenar contatos bilaterais ao “máximo nível”. A declaração traça, de modo contido, os contornos de uma estratégia diplomática que prefere consolidar alicerces antes de promover movimentos públicos de alto impacto — um comportamento típico de quem manobra num tabuleiro de xadrez onde cada peça tem valor estratégico.
No terreno, a noite foi marcada por uma intensa onda de hostilidades: as autoridades de Kiev acusaram a Rússia de ter lançado 138 drones kamikaze contra território ucraniano. Segundo nota da Força Aérea ucraniana, as aeronaves foram disparadas “de diversas direções”; os sistemas de defesa aérea abateram 110 desses veículos não tripulados, enquanto foram confirmados 21 impactos em 11 localidades, além da queda de estilhaços de um drone interceptado em outra região do país. Não foram fornecidos detalhes imediatos sobre vítimas ou extensão dos danos.
A Força Aérea ucraniana alertou que o ataque continuava em curso, com numerosos drones ainda no espaço aéreo, e reiterou orientações de segurança à população. Esses episódios mostram a persistência da pressão militar sobre pontos sensíveis da infraestrutura ucraniana, mesmo quando movimentos diplomáticos tentam redesenhar, com cautela, fronteiras invisíveis de influência.
Em paralelo às operações militares e aos anúncios oficiais, voz ligada ao círculo do Kremlin — Kirill Dmitriev, enviado especial para investimentos e cooperação econômica e diretor do Fundo Soberano Russo — fez uma avaliação pública no X, afirmando que o discurso do presidente ucraniano Zelensky em Davos foi “um fracasso” e que o atraso em aceitar concessões territoriais estaria retardando o processo de paz. A mensagem revela uma narrativa russa que procura capitalizar diplomaticamente cada gesto ocidental, enquanto testa a resiliência dos interlocutores.
Como analista acostumado a ler mapas e mover peças em cenários de alta tensão, vejo neste conjunto de sinais — anúncios de conversas sem calendário firme, a negação de encontros de topo e a continuidade dos ataques com drones — um padrão: a construção metódica de condições para negociações futuras, enquanto se mantém a pressão estratégica no terreno. A tectônica de poder segue em curso, e a diplomacia trabalha para transformar ruídos bélicos em margens negociáveis, observando prazos, limites e custos.
Seguiremos monitorando os desdobramentos destes contatos trilaterais e o ritmo dos ataques, que juntos continuarão a moldar não apenas as próximas semanas, mas a arquitetura mais ampla das relações entre Moscou, Kiev e Washington.






















