Por Marco Severini — Em uma declaração que vale como diagnóstico estratégico, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que os Estados Unidos estão imprimindo um ritmo acelerado às conversações destinadas a encontrar uma solução para o conflito na Ucrânia. As observações foram proferidas após os encontros tripartidos realizados em Abu Dhabi, mediadas precisamente pelos americanos.
Segundo Peskov, há “muito ímpeto em curso”: “Os americanos, enquanto intermediários, estão a correr contra o tempo; têm pressa, e isto é compreensível”, declarou. No mesmo registro, o Kremlin apontou que um progresso rápido rumo à paz dependerá de uma resolução clara sobre a questão territorial — e aí reside o nó principal: o Donbass.
Peskov recordou que desde o início foi sublinhada a complexidade do processo e advertiu que essa não é “uma via preferencial”. Referiu ainda que no encontro de Anchorage teria sido formulada uma proposta concreta para a resolução territorial, e que a aplicação dessa fórmula seria a chave para desbloquear avanços rápidos.
Horas antes do início dos diálogos em Abu Dhabi, o porta-voz já enfatizara ser “importante” para Moscou que as tropas ucranianas se retirassem voluntariamente do Donbass. Do lado ucraniano, o presidente Volodymyr Zelensky descreveu as conversas como ocasião em que se começaram a discutir “possíveis critérios para pôr fim à guerra”.
Fontes russas presentes em Abu Dhabi relataram que, durante quase três horas de reuniões a portas fechadas, foram obtidos “resultados”, mas sublinharam que a questão do controlo do Donbass permanece como a mais complexa. Um funcionário norte-americano presente no encontro descreveu o ambiente como surpreendentemente cooperativo: apesar da “muita carnificina” e das perdas recentes, havia “respeito na sala” e uma disposição genuína em procurar soluções.
As três delegações mostraram-se, segundo declarações públicas, abertas à continuidade do diálogo: já se programa um segundo round de negociações para 1º de fevereiro. Esse calendário, ainda que promissor, não elimina a necessidade de passos concretos sobre território e garantias de segurança que satisfaçam interesses incompatíveis.
Como analista, vejo este movimento como um lance calculado num tabuleiro de xadrez geopolítico: os Estados Unidos tentam acelerar um processo cujo centro de gravidade é a disputa territorial — um território que funciona como um nó crítico na tectônica de poder regional. O triunfo diplomático exigirá, além de vontade política, um desenho de garantias que reforce os alicerces frágeis da diplomacia entre Moscou, Kiev e os intermediários internacionais.
Em suma, há impulso e diálogo, mas o ponto de decisão permanece na geografia do Donbass. Até que esse nó seja desatado — e implementado em termos práticos —, os avanços permanecerão condicionados a concessões duras e a um desenho de segurança que resista à pressão dos atores locais e globais.






















