Por Marco Severini — Em um novo e calculado movimento no tabuleiro da guerra, a Rússia lançou ataques noturnos contra várias cidades ucranianas, atingindo Kiev, Kharkiv, Zaporizhzhia e Dnipro. Relatos oficiais e agências de imprensa indicam múltiplas explosões na capital e o emprego combinado de mísseis balísticos e enxames de drones, numa estratégia que parece visar, deliberadamente, a erosão dos alicerces da vida civil.
O chefe da administração militar de Kiev, Tymur Tkachenko, reportou ataques com mísseis balísticos sobre a cidade. Em Kharkiv, o prefeito Ihor Terekhov confirmou que pelo menos dois mísseis impactaram áreas urbanas, acompanhados de um “massivo ataque” com drones; o balanço provisório aponta uma mulher morta e cinco feridos. Raid também foram registrados em Zaporizhzhia e Dnipro, conforme informações locais.
O presidente Volodymyr Zelensky acusou Moscou de preferir a tática do terror à via diplomática, afirmando que a Rússia preferiu “aproveitar os dias mais frios do inverno para amedrontar a população” em vez de avançar nas negociações, numa mensagem publicada nas redes. Segundo dados citados por Zelensky, as ofensivas envolveriam o emprego de mais de 70 mísseis e cerca de 450 drones, um volume que confirma uma intensificação operacional e um esforço para atingir infraestruturas críticas.
O ministro do Desenvolvimento, Oleksiy Kuleba, detalhou que os ataques focaram as infraestruturas energéticas ucranianas, deixando sem aquecimento mais de 1.100 edifícios residenciais na capital, onde as temperaturas rondam os 20 graus abaixo de zero. A destruição de redes de aquecimento e de serviços básicos revela uma intenção estratégica clara: minar as condições elementares de sobrevivência civil e exercer pressão política pelo desconforto e desgaste.
Em paralelo, fontes citadas pelo Financial Times indicam que autoridades ucranianas, europeias e americanas discutiram um plano de resposta coordenada a eventuais violações de um futuro cessar-fogo. A proposta, segundo três fontes informadas, prevê uma sequência em fases: primeiro, um aviso diplomático e uma reação rápida das forças ucranianas para conter a infração dentro de 24 horas; depois, a mobilização de uma «coalizão de voluntários» — mais de 20 aliados prontos a oferecer garantias de segurança — e, na hipótese de escalada, uma resposta militar coordenada apoiada pelo Ocidente, incluindo forças dos Estados Unidos, em torno do terceiro dia após a primeira violação.
Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de um desenho que combina coerência tática e mensuração estratégica: Moscou, ao mirar sistemas de aquecimento e serviços públicos, trabalha sobre os vetores humanos do conflito; Washington e seus aliados, por sua vez, delineiam mecanismos de contenção e dissuasão que pretendem operar como um contrapeso no mesmo tabuleiro. Essa dinâmica não é apenas uma sequência de ataques e retaliações — é um redesenho das fronteiras invisíveis de influência e responsabilidade.
Para analistas e formuladores de política, as implicações são claras: a guerra entra em uma nova fase de pressão sobre a sociedade civil e de testes às respostas coordenadas do Ocidente. Resta observar se as garantias e os planos discutidos irão materializar-se em respostas eficazes ou se o conflito seguirá impondo seus custos sobre civis e infraestruturas, transformando a tectônica do poder regional.





















