Por Marco Severini — Em uma sequência de declarações e atos que mais parecem movimentos calculados num amplo tabuleiro geopolítico, Robert Kennedy Jr. volta a ocupar as pautas com revelações pessoais e escolhas públicas que reacendem velhas polémicas. Em um podcast recente, o secretário à Saúde dos EUA admitiu ter cheirado cocaína “das bordas do vaso” nos piores momentos de sua dependência, um episódio que ele usa para explicar sua suposta indiferença aos microrganismos. Mas essa confissão é apenas um trecho de uma biografia de excessos e contradições.
Nascido em uma das famílias mais simbólicas da política americana, Kennedy acumula episódios que moldaram sua imagem: 14 anos de dependência de heroína, iniciada na juventude universitária e estendida até os primeiros anos da década de 1980; uma prisão por posse de drogas em 1983, que ele descreve como um ponto de virada; e, segundo memórias publicadas, o uso de DMT, potente psicodélico. Essas experiências pessoais não só influenciaram sua trajetória, mas também servem hoje como alicerces de sua retórica pública.
No campo da saúde pública, entretanto, a atuação de Kennedy é um movimento que tem redesenhado zonas de influência: enquanto a ciência e as instituições sanitárias defendiam massivamente a vacinação como ferramenta central durante a pandemia de Covid-19, ele promoveu encontros presenciais e uma narrativa contrária às evidências. Tornado secretário à Saúde, o ex-democrata adotou uma agenda no-vax, vinculando — sem provas científicas — vacinas a casos de autismo. Em audiências de confirmação no Congresso, ele mesmo admitiu recorrer a influenciadores e figuras informais das redes sociais como fontes, e não a estudos científicos ou especialistas reconhecidos.
Outra faceta desta estratégia foi a defesa do consumo de leite cru, não pasteurizado. Relatos indicam que, no Novo México, um recém-nascido morreu após a mãe, grávida, ter consumido leite cru seguindo orientações alinhadas com os conselhos difundidos por Kennedy. Episódios como esse somam-se ao ressurgimento de surtos de sarna e sarampo em regiões rurais dos EUA — do Texas ao Oklahoma — particularmente em comunidades receptivas à linha no-vax promovida por ele.
Num jogo de aparências, Kennedy também projeta contradições: embora frequentemente critique vacinas para o público, admitiu ter vacinado todos os seus filhos. Defensor declarado de alimentos não processados e crítico do “fast food”, acabou por enaltecer publicamente hábitos alimentares do ex-presidente Donald Trump — hambúrgueres, batatas fritas e refrigerante diet — numa espécie de convergência política e cultural que desafia coerências.
Como observador das tectônicas de poder, é essencial ler essas ações como movimentos estratégicos: Kennedy não atua apenas como dissidente individual, mas como catalisador de redes que contestam cientificidade e instituições, redesenhando fronteiras invisíveis entre opinião pública, saúde e política. Sua trajetória pessoal — de vícios e revelações — serve tanto de escudo quanto de estandarte para uma base que valoriza autoridade alternativa sobre expertise convencional.
Ao analisar este caso, mantenho a postura de diplomata da informação: reconhecer fatos, mapear efeitos e antecipar consequências. Enquanto as instituições de saúde enfrentam esses ventos contrários, o desafio é fortificar alicerces científicos e recuperar a confiança pública, antes que o reenquadramento de normas sanitárias se transforme em correção difícil de reverter no tabuleiro da saúde global.






















