Por Marco Severini — A cena estratégica do Médio Oriente atravessa uma fase de reacomodamento em que a antiga polarização ideológica cede espaço a uma disputa por liderança regional. Nesta nova tessitura, não se trata apenas de blocos cimentados pela religião ou pela doutrina, mas de Estados que buscam consolidar posições hegemónicas. O confronto soterrado entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos é, neste sentido, sintomático: Riad, tradicional centro gravitacional do mundo árabe sunnita, percebe Abu Dhabi hoje como rival imediato, capaz de mover-se com maior audácia e de atraír apoios externos estratégicos.
O que está em jogo é uma redefinição do eixo de influência. Os Emirados desenvolveram uma política externa assertiva e projetiva que dialoga, de forma estrutural e não acidental, com Israel. Essa convergência — visível em cooperação militar, partilha de inteligência e acesso a infraestruturas — transforma iniciativas regionais em movimentos coordenados: o apoio em operações em Gaza e a presença ampliada no Corno de África e no Mar Vermelho são manifestações dessa sinergia.
No entanto, toda expansão encarna também o risco de sobreextensão. O envolvimento em conflitos externos — do Sudão, onde Abu Dhabi tem sido associado a apoios às Forças de Apoio Rápido, ao sul do Iémen — demonstra limites concretos. A reação saudita, expressa em ataques às milícias do Conselho de Transição do Sul, assinalou um ponto de inflexão: Riad não aceitará passivamente a perda de espaço estratégico para um antigo parceiro que agora se comporta como concorrente.
A rivalidade desdobra-se no Mar Vermelho, artéria vital para o comércio global, onde as movimentações em favor de interesses etíopes e a pressão sobre Eritreia e Somália criam fricções que podem acender pontos de instabilidade numa região já frágil. Trata-se de um jogo de peças no tabuleiro naval que pode reconfigurar rotas comerciais e alianças locais.
Em resposta, a Arábia Saudita tece uma rede de contrapesos: aproximação com o Egito, renovado diálogo com a Somália e até uma ligação mais notória com o Paquistão, que funciona como um guarda-chuva estratégico implícito. Este realinhamento evidencia, também, uma crescente cautela em relação aos Estados Unidos, percebidos por Riade como parceiros por vezes voláteis quando os interesses israelenses entram em jogo.
Paralelamente, o cenário global desenha outra frente: a política de máxima pressão ocidental contra atores refratários, notadamente o Irã e a Venezuela. Sanções, esforço de desgaste interno e ameaças calibradas de intervenção compõem uma estratégia destinada mais a corroer capacidades do que a forjar soluções diplomáticas duradouras. Manifestações no Irã com raízes essencialmente econômicas têm sido rapidamente instrumentalizadas em narrativas externas, ampliando a tectônica de poder que atravessa o sistema internacional.
O quadro que emerge é de falhas geopolíticas — linhas de fratura que cruzam o espaço árabe e que tendem a se aprofundar se não forem estabelecidos novos alicerces diplomáticos. O realinhamento Abu Dhabi–Tel Aviv versus Riad e seus novos aliados não é apenas um episódio local: é um movimento decisivo no tabuleiro regional, com implicações para rotas comerciais, blocos militares e a estabilidade de Estados fronteiriços.
Como diplomata da informação, destaco que a gestão desta recomposição exige níveis de prudência e de artesanato diplomático raros na política contemporânea. Sem mecanismos de mitigação e sem canais confiáveis de comunicação entre as capitais, a soma de ambições nacionais poderá transformar concorrência estratégica em conflito aberto — um resultado que nenhuma das partes tem interesse em assinar, mas que todas elas, se descuidadas, podem inadvertidamente provocar.






















