Por Marco Severini — Há um movimento decisivo no tabuleiro da imagem pública que atravessa continentes e transforma vidas comuns em problemas de ordem social. Em Kayseri, no coração da Turquia, Rifat Özdemir, 55 anos, vive um calvário cotidiano desde que percebeu a assustadora semelhança física com o financiador americano Jeffrey Epstein, figura associada a escândalos de abuso e crimes que marcaram a última década.
O episódio começou de modo quase inocente: um sobrinho comentou a semelhança. Naquele momento, Rifat Özdemir sequer sabia quem era a pessoa às quais o rosto remetia. Uma busca rápida nas redes e no Google bastou para que se desse conta do peso da associação — um rosto quase idêntico vinculado a crimes que chocaram a opinião pública internacional. Desde então, caminhar pela cidade tornou-se uma experiência de julgamento e suspeita.
O que para muitos seria uma curiosidade transformou-se, para Rifat, em estigma. Olhares severos, cochichos e a suposição de parentesco com o agora falecido financista desencadearam uma ansiedade persistente. “A população me observa com olhos críticos”, disse ele a veículos locais. “Ouço: ‘olha, parece com Epstein, deve ser parente’, e isso me causa profundo desconforto”.
Há aqui um princípio que remete aos alicerces frágeis da diplomacia simbólica: a imagem muitas vezes precede a essência, e as fronteiras invisíveis entre identidade e reputação podem ser redesenhadas por associações fortuitas. Não importa a distância cultural ou social entre um trabalhador honesto de Kayseri e um magnata de Nova York — o poder de uma imagem é, por vezes, tectônica, capaz de rearranjar percepções e abrir fissuras na vida privada.
Decidido a reagir, Rifat Özdemir anunciou mudanças drásticas no próprio visual na tentativa de romper o vínculo indesejado. Apesar de nunca ter tido barba em cinquenta anos, pretende agora deixá-la crescer e alterar o corte de cabelo. “Farei cada mudança possível”, declarou, ciente porém de que traços e expressões faciais são difíceis de modificar completamente.
O homem lançou também um apelo público: que cessem as comparações e que a comunidade reconheça a ausência de qualquer vínculo com o falecido americano. Em tom comedido, ele reivindica um bem pouco comum na era digital — o direito de voltar a ser um anônimo.
O caso de Rifat é reflexo de um tempo em que a semelhança física pode transformar um cidadão comum em alvo de estigmatização social. Mais do que curiosidade, trata-se de uma lição sobre como imagens atravessam geografia e política, redesenhando relações e impondo decisões pessoais que, em sua essência, são medidas de autopreservação. Em termos de estratégia social, é um exemplo de como um lance no tabuleiro — um comentário, uma foto — pode forçar uma jogada defensiva na vida real.
Em última análise, Rifat Özdemir busca apenas recuperar algo elementar: a liberdade de existir sem carregar, involuntariamente, o peso da reputação de outro. É um pedido que toca tanto a esfera pública quanto a privada, lembrando-nos que a geopolítica das imagens também exige regras e humanidade.






















