Por Marco Severini — Em um movimento preciso no tabuleiro das políticas culturais e da conservação patrimonial, os Museus Vaticanos iniciaram um restauro extraordinário no Juízo Final de Michelangelo, na Capela Sistina. O trabalho, anunciado pela diretora Barbara Jatta, tem caráter conservacionista e de diagnóstico: a remoção de uma película branca de origem exógena que, ao longo de décadas, atenuou os valores do claroscuro e a vivacidade das cromias michelangiolescas.
Os trabalhos começaram nestes dias e foram programados para se encerrar antes da Semana Santa, sem interromper o acesso de fiéis e visitantes. A operação é conduzida pelo Laboratório de Restauro de Pinturas e Materiais Lignários, com a documentação fotográfica sistemática do Laboratório Fotográfico dos Museus Vaticanos — registro essencial para a memória técnica e histórica do monumento.
As análises científicas identificaram a película como lactato de cálcio, um depósito superficial solúvel em água. O procedimento de limpeza previsto utiliza aplicações controladas de água deionizada e papel japonês, metodologia que permite “sollevar” o depósito sem agressão à película pictórica original. Trata-se de um restauro de precisão, concebido para preservar os alicerces materiais da obra ao mesmo tempo em que restabelece a leitura cromática idealizada pelo artista.
Passaram-se cerca de trinta anos desde a última intervenção, concluída em 1994. Nos últimos dois anos, a Direção dos Museus Vaticanos realizou uma revisão organica da superfície do Juízo Final, seguida de um ano e meio de estudos e análises aprofundadas que culminaram na montagem de um andaime especial com proteção visual, permitindo que os restauradores atuem a pouca distância da parede, sem expor o público a interferências.
Essa operação inscreve-se em uma tradição de tutela que remonta ao século XVI: em 1543, sob o pontificado de Paolo III, foi institucionalizado o papel do mundator, responsável por limpezas periódicas. Recuperar essa prática com critérios científicos modernos é, em termos geopolíticos da cultura, um gesto de continuidade e de reafirmação dos compromissos do Vaticano com a conservação do património universal.
Além de restituir a plena legibilidade e a riqueza tonal do afresco, a remoção do véu branco permitirá a aquisição de informações preciosas sobre a origem e os mecanismos de formação desses depósitos. Este conhecimento é estratégico: fundamentará medidas preventivas para mitigar futuras deposições e preservar o fresco como se preserva uma peça-chave numa defesa estável do patrimônio — como mover uma peça clássica para proteger um flanco vulnerável no jogo diplomático da conservação.
Do ponto de vista técnico e simbólico, trata-se de um restauro que equilibra cautela e decisão. A Capela Sistina permanecerá aberta, e a intervenção será acompanhada por documentação visual e relatórios científicos que, esperamos, integrarão o corpo de conhecimento sobre Michelangelo e sobre técnicas de conservação em ambientes sensíveis. É um ato de restauração que devolve luz ao original e reforça, ao mesmo tempo, os alicerces frágeis mas essenciais da diplomacia cultural.
O público poderá, nos próximos meses, testemunhar a reemergência das intensidades cromáticas projetadas por Michelangelo: um redesenho, discreto mas decisivo, da paisagem visual daquele que é um dos pontos mais elevados da arquitetura simbólica do Ocidente.






















