Laurence des Cars apresentou sua renúncia à frente do Louvre mais de quatro meses após o audacioso roubo de joias avaliado em cerca de 100 milhões de dólares, ocorrido em 19 de outubro. O gesto marca o fim de um ciclo turbulento para a maior instituição museológica estatal do planeta, que passou a operar em um contexto de fragilidades expostas e pressões internas e externas.
O episódio inicial — o chamado “furto do século”, em que os ladrões entraram em plena luz do dia utilizando um monta-cargas e fugiram em menos de oito minutos com oito joias da Coroa do século XIX — funcionou como um movimento decisivo no tabuleiro institucional: revelou lacunas de segurança que se combinaram com uma sucessão de incidentes operacionais.
Desde então, o museu enfrentou problemas estruturais que determinaram o fechamento de galerias, inundações na área dedicada às antiguidades egípcias e uma infiltração que danificou tetos pintados numa sala que abriga obra do Beato Angelico. No início de fevereiro, um esquema de bilhetes falsos causou prejuízos estimados em 10 milhões de euros, aprofundando a crise financeira e reputacional. Paralelamente, greves e protestos dos trabalhadores, em curso desde dezembro, exigiram melhores condições laborais e investimentos para modernizar as instalações.
Aos 59 anos, a diretora — nomeada em 2021 como a primeira mulher a chefiar o Louvre — entrega o cargo num momento em que as expectativas de estabilidade e reformas crescem. A Presidência da República, por sua vez, recebeu a renúncia e a qualificou, através do presidente Emmanuel Macron, como um “ato de responsabilidade”, justificando a decisão como necessária para devolver calma ao museu e insuflar um novo e vigoroso impulso aos projetos de segurança e modernização.
É relevante lembrar que, poucos dias após o roubo, des Cars já havia anunciado em audiência no Senado ter oferecido sua saída, oferta então rejeitada pela ministra da Cultura, Rachida Dati. Agora, com a aceitação presidencial, o Elísio agradeceu seu trabalho e comunicou que ela ficará vinculada a um papel ligado à presidência francesa do G7, coordenando a cooperação entre os principais museus dos países participantes — uma função que preserva sua experiência enquanto a administração busca um novo comando.
Documentos internos indicam que, em janeiro de 2025, des Cars havia alertado o ministério sobre a situação estrutural e operacional do museu, antecipando riscos que depois se materializaram. Quatro pessoas foram detidas sob a acusação de participação no roubo, mas as joias permanecem desaparecidas, alimentando um misto de apreensão pública e debates sobre responsabilidade institucional.
Em janeiro de 2025, o presidente Macron apresentou o plano “Louvre — Novo Renascimento”, destinado a enfrentar essas fragilidades, incluindo a concepção de um novo acesso até 2031. A pirâmide de 1988 e o atual ingresso foram considerados “estruturalmente obsoletos”, evidenciando a necessidade de um redesenho das rotas de circulação e segurança — um redesenho equivalente a um reposicionamento estratégico no tabuleiro urbano e patrimonial de Paris.
Como analista, observo que esta renúncia é ao mesmo tempo um gesto pessoal de responsabilidade e uma jogada institucional que permite abrir caminho para reformas profundas. O desafio imediato é transformar a crise em alicerce para melhorias duradouras: reforço da segurança, modernização das infraestruturas e reconciliação das relações de trabalho. Só assim o Louvre poderá recuperar tranquilidade institucional e cumprir seu papel de guardião do patrimônio coletivo, preservando-se não apenas como museu, mas como peça-chave na tectônica de poder cultural da França.






















