Por Marco Severini — Em um movimento simbólico que ecoa como um lance decisivo num tabuleiro global, o Relógio do Apocalipse foi ajustado para 85 segundos da meia-noite, aproximando-se mais do que nunca do ponto crítico que representa a catástrofe global. O anúncio, feito pelo Bulletin of the Atomic Scientists, aponta a convergência perigosa entre a competição entre potências, o avanço das armas nucleares, a mudança climática e a proliferação da desinformação como fatores determinantes dessa progressão.
Instituído no início da Guerra Fria, o relógio metafórico tem a função de medir — em termos simbólicos — o grau de risco enfrentado pela humanidade. As mãos foram adiantadas em quatro segundos em relação ao ano anterior, decisão tomada após consulta a um conselho consultivo que inclui oito ganhadores do Prêmio Nobel e especialistas em segurança global. Tal escolha não é trivial: é a leitura de um tabuleiro geopolítico cujo desenho mostra linhas de tensão se estreitando.
Entre os elementos citados pelo Bulletin, sobressai o risco de uma nova corrida armamentista nuclear, alimentada pela iminente expiração do tratado New START entre Washington e Moscou. Com o tratado à beira de uma eventual não renovação, “pela primeira vez em mais de meio século, não haverá barreiras institucionais claras a uma corrida descontrolada de armamentos nucleares”, advertiu Daniel Holz, físico da Universidade de Chicago e presidente do Conselho de Ciência e Segurança do Bulletin, em coletiva de imprensa.
O comunicado também aponta mudanças no comportamento de grandes Estados: além dos Estados Unidos, Rússia, China e outras potências têm adotado posturas mais assertivas, nacionalistas e hostis, corroendo os mecanismos multilaterais que, até agora, funcionavam como alicerces (embora frágeis) da estabilidade internacional. Esse erosão do marco cooperativo acelera um padrão do tipo “o vencedor leva tudo”, que torna mais difícil a gestão conjunta de riscos que não respeitam fronteiras, como o aquecimento global e a má utilização de tecnologias emergentes.
No capítulo interno dos Estados Unidos, o Bulletin chamou atenção para ações recentes do governo — numa narrativa que inclui ordens de ataques unilaterais no exterior, retirada de organizações internacionais e uso de forças federais em confrontos domésticos. O episódio em Minnesota, onde agentes mascarados e armados foram empregados em uma operação anti-imigração que resultou em repressão violenta e duas mortes, foi citado como sintoma de uma deterioração da resposta estatal ao dissenso. “A história demonstra que quando os governos deixam de responder aos seus cidadãos, segue-se conflito e miséria”, destacou Holz.
Paralelamente, sinais climatológicos contrariaram esforços internacionais: emissões de dióxido de carbono atingiram níveis recordes no momento em que políticas ambientais são revertidas em vários países, inclusive nos EUA. O Bulletin sublinha que essa combinação — aumento das emissões, recuo de políticas climáticas e desmantelamento de acordos — amplia a probabilidade de efeitos catastróficos a médio e longo prazo.
Houve ainda um alerta sobre a chamada crise da informação: vivemos um verdadeiro Armagedom da informação, com erosão da confiança pública, polarização e fluxo massivo de desinformação, que mina a coesão social e a capacidade de resposta coletiva a ameaças transnacionais.
Como analista que observa a tectônica de poder global, vejo esse ajuste do relógio como um diagnóstico frio e preciso: não se trata apenas de pânico, mas da constatação de falhas institucionais múltiplas — um redesenho de fronteiras invisíveis que exige respostas estratégicas. Em termos de xadrez, estamos diante de um tabuleiro em que várias peças poderosas avançaram sem que regras de contenção claras permaneçam em pé. A arquitetura da governança mundial precisa ser reparada com urgência; sem isso, a probabilidade de lances catastróficos aumenta.
Não é tarde, porém, para medidas que restabeleçam confiança: renovação de tratados de controle de armas, reengajamento multilateral nas políticas climáticas, mecanismos robustos de regulação e verificação tecnológica e um esforço internacional coordenado para conter a desinformação. Essas ações exigem coragem diplomática e visão de Estado — a habilidade de mover-se no tabuleiro não apenas reativamente, mas com planejamento estratégico.
O Relógio do Apocalipse não é uma sentença, é um aviso. A escolha entre o colapso e a contenção permanece nas mãos dos atores estatais e das instituições globais. Como na arquitetura clássica, é possível reconstruir, mas é necessária uma fundação reforçada, sustentada por compromisso e liderança responsável.






















