Como em cada atualização anual, o Bulletin of the Atomic Scientists reposicionou hoje o simbólico Relógio do Apocalipse. Agora encontra-se a 85 segundos da meia-noite, ou seja, quatro segundos mais próximo do ponto de aniquilação em comparação com o ano anterior. A decisão dos cientistas do Bulletin aponta para uma convergência perigosa de fatores que elevam o risco de um desastre global.
Na justificativa pública, o Bulletin citou o comportamento cada vez mais agressivo de três potências nucleares — Rússia, China e Estados Unidos — o enfraquecimento dos mecanismos de controle de armas nucleares, os conflitos em Ucrânia e no Oriente Médio e as preocupações em torno da integração não regulada da inteligência artificial em sistemas militares. Os cientistas também lembraram os riscos associados ao uso indevido da IA na criação ou automatização de ameaças biológicas e no impulso à desinformação em escala global, além das persistentes ameaças do mudança climática.
O Relógio do Apocalipse foi criado em 1947, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, para traduzir visualmente quão próximos estamos da destruição global. Em linguagem direta, Alexandra Bell, presidente e CEO do Bulletin, falou em um colapso sistêmico da liderança mundial. Segundo Bell, a combinação entre o que descreve como neoimperialismo e uma governança que tende a métodos orwellianos empurra o relógio para frente. Estamos, nas palavras dos cientistas, diante de um padrão repetido: nos últimos quatro anos, três vezes o ponteiro aproximou-se da meia-noite.
Em termos nucleares, a avaliação é implacável. Não houve avanços significativos em 2025, os tratados diplomáticos de longa duração estão sob pressão ou em colapso, e a perspectiva de testes nucleares explosivos retornou ao repertório estratégico de algumas potências. O Bulletin aponta que se registraram três operações militares sob a sombra de armas nucleares, com risco de escalada inaceitavelmente alto. Bell citou diretamente a guerra da Rússia na Ucrânia, os ataques estadunidenses e israelenses ao Irã, e confrontos nas fronteiras indo-paquistanesas. Além disso, persistem tensões na península coreana e a pressão chinesa sobre Taiwan, enquanto no hemisfério ocidental crescem fricções desde a volta ao poder do presidente Donald Trump.
Outro marco temporal crítico é o fim próximo do último tratado nuclear sólido entre EUA e Rússia, o New START, marcado para expirar a 5 de fevereiro. Em setembro, o presidente russo sugeriu uma prorrogação de um ano das limitações, mas a arquitetura de verificação e confiança necessária para estabilizar o tabuleiro de xadrez nuclear permanece frágil.
Como analista, prefiro ver estes sinais não como pânico, mas como um desenho claro das linhas de fratura na tectônica do poder global. O avanço de quatro segundos no Relógio do Apocalipse é um movimento decisivo no tabuleiro, um lembrete de que os alicerces da diplomacia coletiva estão sendo corroídos por simultâneas dinâmicas tecnológicas e geopolíticas. Sem restabelecer canais de diálogo, regras de controle e limites éticos para a tecnologia militar, o mundo ficará mais vulnerável a erros de cálculo que podem ser irreversíveis.
O Bulletin oferece um alerta: a mudança de ponteiros é simbólica, porém calculada. Cabe às lideranças mundiais — e à classe diplomática e técnica que as assessora — responder com medidas que fortaleçam a arquitetura de estabilidade, reinstituam verificações confiáveis e coloquem a governança da tecnologia em patamares que previnam tanto a escalada como a banalização do risco existencial.





















