Por Marco Severini — O mais recente Boletim dos Cientistas Nucleares traça um quadro severo: a humanidade nunca esteve tão próxima do colapso global desde a criação do instrumento em 1947. Segundo a publicação divulgada hoje, o Relógio do Apocalipse coloca o mundo a poucos segundos da meia-noite, sinalizando uma conjuntura de riscos combinados que se reforçam reciprocamente.
O painel responsável pelo relógio reúne especialistas de disciplinas diversas — desde perícias em armas nucleares até climatologia, biologia e estudos sobre tecnologias emergentes. Sua avaliação incorpora fatores geopolíticos tensos, a aceleração das mudanças climáticas e um ambiente tecnológico em rápida expansão, capazes de redesenhar fronteiras invisíveis de poder e vulnerabilidade.
O boletim, apresentado em cerimônia transmitida por YouTube e que contou com a participação da laureada com o Nobel da Paz Maria Ressa, indica que hoje estamos a cerca de 85 segundos da meia-noite. Deve-se notar que, em diferentes trechos do comunicado, há menções a uma cifra ligeiramente distinta — 89 segundos — o que ressalta a sensibilidade e a natureza por vezes fluida das leituras deste termômetro global. Seja qual for o número exato, a mensagem é inequívoca: as lancetas avançaram para uma posição de risco extremo.
Para colocar em perspectiva: o momento mais seguro registrado foi o de 1991, quando o fim da Guerra Fria afastou a ameaça nuclear e o relógio apontou 17 minutos para a meia-noite. Nos picos da tensão entre Estados Unidos e União Soviética, as ponteiras chegaram a apenas três minutos. Em 2010, graças a avanços em diplomacia e cooperação em segurança nuclear — e ao ímpeto de acordos climáticos como a cúpula de Copenhague — o marcador estava em seis minutos. Desde então, porém, a marcha acelerou: dois minutos em 2018, 100 segundos em 2020, 90 segundos em 2023, e agora a medição mais recente aponta 85–89 segundos.
Os analistas do Boletim enfatizam que a atual fase é caracterizada por uma instabilidade nuclear elevada, com relações entre grandes potências mais tensionadas do que em décadas, e um eixo atlântico fragilizado por episódios políticos e retóricas internacionais — incluindo declarações sobre a Groenlândia que ilustram o recrudescimento de ambições territoriais e a erosão de normas diplomáticas.
O Relógio do Apocalipse nasceu como um instrumento de aviso: após Hiroshima e Nagasaki, cientistas de destaque decidiram criar um mecanismo que traduzisse, em termos compreensíveis ao público e aos decisores, a conjuntura de ameaças que a ciência moderna poderia produzir. Já naquela época, eles advertiram que a bomba atômica seria “apenas o primeiro de muitos presentes perigosos da caixa de Pandora da ciência moderna”. Essa previsão, histórica e sombria, vem se confirmando à medida que riscos nucleares, crise climática, pandemias e tecnologia emergente convergem.
Enquanto a orquestra internacional de segurança encontra-se num compasso irregular, cabe aos estados, organismos multilaterais e à sociedade civil reconstruir alicerces diplomáticos e mecanismos de governança que revertam esse impulso fatalista. Em termos estratégicos, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro global: cada ação — tratada com prudência e visão de longo prazo — pode deslocar as peças rumo a um desenlace de contenção ou, ao contrário, acelerar o caminho para a catástrofe.
O relatório não pretende ser profecia, mas sim um mapa de riscos que exige respostas imediatas e coordenadas. A estabilidade internacional é uma construção frágil, cuja manutenção passa por reconstruir confiança, fortalecer controles sobre tecnologias letais e priorizar acordos climáticos robustos. Sem esses passos, a história e a cartografia do poder continuarão a mover-se em direção a uma meia-noite cada vez mais plausível.






















