O governo britânico avalia, com crescente seriedade, a hipótese de impor uma proibição de acesso às redes sociais a menores de 16 anos, emulando a iniciativa recentemente aprovada na Austrália. A possibilidade foi aberta publicamente pelo primeiro‑ministro Keir Starmer, que não descartou a tramitação de uma proposta de lei específica para o tema.
Em declaração concedida à imprensa, num momento que coincidia com a gestão de um delicado contencioso com os EUA sobre a Groenlândia e medidas tarifárias anunciadas por Washington, Starmer afirmou que “devemos fazer mais para proteger nossos filhos” e que todas as opções permanecem sobre a mesa, inclusive aquelas que possam conflitar com os interesses dos grandes grupos tecnológicos transatlânticos.
A medida australiana — que prevê a desativação de mais de um milhão de contas pertencentes a utilizadores com menos de 16 anos a partir de quarta‑feira — causou um forte debate público internacional. O governo em Camberra classificou as plataformas digitais por vezes como uma espécie de “cocaína comportamental“, defendendo que limitar o acesso contribuirá para fomentar «mais interações interpessoais» e reduzir efeitos nocivos no desenvolvimento juvenil.
No Reino Unido, a consideração de um banimento legal marca uma guinada em relação à postura anterior de Starmer, que havia preferido mecanismos de autorregulação e o reforço das salvaguardas existentes. Agora, diante do que qualifica como um “sistema digital cada vez mais invasivo”, a opção legislativa volta a emergir como instrumento possível para redesenhar os alicerces da proteção infantil no ambiente online.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento com múltiplas frentes: impacto social doméstico, atrito potencial com empresas de tecnologia estabelecidas fora do território nacional e repercussões diplomáticas. A proposta não é apenas uma medida administrativa; é um lance no tabuleiro onde se confrontam soberania regulatória, interesses econômicos e a preservação do tecido social. Como em uma partida bem estudada de xadrez, cada torre ou bispo deslocado hoje pode determinar a geografia das influências digitais amanhã.
Especialistas em política pública lembram que o êxito de qualquer norma depende tanto de sua redação técnica quanto da capacidade de execução — monitoramento de identidades, verificação de idade e cooperação internacional serão peças-chave. Por ora, o debate público britânico aguarda detalhes: escopo exato do eventual veto, mecanismos de aplicação e exceções possíveis para educação e segurança.
Para além da retórica, a iniciativa australiana funciona como um teste de tectônica de poder: se Canberra demonstrar viabilidade operacional e ganhos tangíveis, o precedente poderá acelerar propostas similares em capitais europeias. Se fracassar, servirá de alerta sobre custos e limitações.
Em suma, a hipótese de limitar o uso de plataformas por menores de 16 anos é mais que uma medida de proteção infantil; é um movimento para reconfigurar zonas de influência no universo digital. A diplomacia normativa e as negociações entre governos e gigantes tecnológicos definirão, nas próximas semanas e meses, se este será um redesenho pragmático dos contornos digitais ou um gesto simbólico com efeitos limitados.






















