Por Marco Severini — No tabuleiro delicado da segurança privada britânica, observa-se um movimento que revela tanto as fragilidades sociais quanto um redesenho silencioso dos meios de defesa pessoal. Uma reportagem do Guardian destaca o crescimento expressivo da demanda por cães de proteção, animais treinados para morder, imobilizar e soltar sob comando, cujo preço pode alcançar até £32.000 — cerca de €37.000.
Trata-se de um mercado que, até recentemente, era restringido a milionários e a profissionais da segurança privada. Agora, impulsionado pela visibilidade nas redes sociais, pelo endosso de figuras públicas e por uma sensação ampliada de insegurança frente à criminalidade, o produto ganhou escala. O perfil desses animais de elite inclui pastores alemães selecionados, malinois belgas, dobermanns, rottweilers e cane corso, todos preparados para reagir a ameaças potenciais e bloquear fisicamente intrusos a comando do dono.
Entre os compradores citados figuram celebridades e atletas: nomes como Rochelle e Marvin Humes, Molly-Mae Hague, Katie Price, o ator Barry Keoghan e jogadores de futebol como John Terry, Rio Ferdinand, Marcus Rashford e Raheem Sterling. Muitos relatam que a decisão ocorreu depois de furtos residenciais, perseguições ou episódios que colocaram em risco sua integridade física — a influenciadora Kayla Itsines, por exemplo, afirmou que passou a dormir tranquila apenas depois da aquisição de dois cães treinados por uma empresa britânica.
O crescimento não é exclusividade do Reino Unido. Em países como Alemanha há tradições estabelecidas, como o Schutzhund, disciplina canina rigorosa para avaliar capacidades de proteção. Nos Estados Unidos, modalidades contemporâneas mais extremas, denominadas “protection sports”, vêm ganhando popularidade. O que muda é a escala comercial e a exposição midiática que legitima o uso desses animais em camadas socioeconômicas mais amplas.
Contudo, a expansão levanta questões cruciais, que exigem análise serena e de longo prazo. Do ponto de vista coletivo emergem interrogações sobre a segurança pública, o bem-estar animal e a responsabilidade legal quando um cão de defesa causa um incidente. Em termos jurídicos, a presença crescente desses animais no espaço urbano pressiona o sistema para definir regras claras de posse, treino e responsabilidade civil.
Há também um núcleo ético e técnico: o adestramento para ataque condicionado altera comportamentos naturais e demanda protocolos rigorosos que protejam tanto a sociedade quanto o próprio animal. Sem normas e fiscalização, aumenta-se o risco de acidentes, uso indevido e mercantilização de práticas que deveriam permanecer em contextos altamente regulados.
Como analista, observo esse fenômeno como um lance de xadrez onde cada movimento altera a percepção de segurança e os alicerces da convivência urbana. A resposta pública deveria ser arquitetada com precisão: políticas que equilibrem direito à proteção individual e salvaguarda da coletividade, normas de bem-estar animal e responsabilização legal. Caso contrário, corre-se o risco de crescer um mercado paralelo cujas consequências se propagam como ondas sísmicas na tectônica de poder local.
Num cenário ideal, o Estado e os atores privados estabeleceriam padrões — certificação de treinadores, limites claros para capacidades de intervenção dos animais, obrigações de seguro e campanhas educativas — para evitar que a solução privada se transforme em problema público. O Reino Unido, hoje, apresenta-se no meio dessa encruzilhada: um movimento de mercado que exige resposta de Estado e sociedade, com a sobriedade de quem joga para garantir a estabilidade do tabuleiro.





















