Por Marco Severini — Em um movimento que remete aos alicerces do sistema monetário, o ouro subiu com decisão enquanto outros ativos perdem credibilidade. Depois de ultrapassar, pela primeira vez, a marca de 5.000 dólares por onça na sessão anterior, o metal amarelo acelerou sua valorização num clima que todo investidor experiente reconhece: incerteza persistente, geopolítica nervosa e uma Washington imprevisível.
Desde o início do ano, o ouro acumulou ganhos da ordem de 18%, a melhor performance anual desde 1979. Não se trata de um rali técnico ou de uma moda passageira: é uma fuga ordenada e amplamente participada. O movimento é alimentado por uma combinação agora conhecida — tensões geopolíticas crescentes, expectativas de cortes de juros nos EUA, compras maciças pelos bancos centrais e um escrutínio cada vez mais crítico sobre avaliações exuberantes no universo da inteligência artificial. Como cola desse conjunto, instalou-se um sentimento sob o qual até os refúgios tradicionais perdem peso.
O dólar e os Treasury deixaram de ser porto automático em tempestades financeiras. Quando até o porto parece instável, busca-se a mais antiga das jangadas. As disputas recentes entre os Estados Unidos e a OTAN em torno da Groenlândia acrescentaram uma camada adicional de inquietação. Paralelamente, a política comercial de Donald Trump atua como catalisador: retirada de tarifas relativas ao litígio da Groenlândia, ameaças de imposto de 100% ao Canadá em caso de acordo comercial com a China e novos direitos sobre importações da Coreia do Sul. No horizonte imediato, paira ainda o risco de um shutdown parcial do governo federal, com o calendário orçamentário vencendo em 30 de janeiro.
Nesse contexto, reduzir exposição a bonds e dólares passou de ato de arrojo a gesto de prudência. O ouro, que não paga cupom nem dividendos, torna-se particularmente desejável por aquilo que não faz: não depende de decisões de governo, de mudanças de orientação de bancos centrais ou de comunicados que variam conforme o fim de semana. A haste do metal tem sido fortalecida por compras estratégicas — em particular de bancos centrais de economias emergentes, com a China na dianteira — e pela ação de gestores de patrimônio que reaprenderam a resguardar capital com ouro físico.
O mercado agora focaliza a Federal Reserve, reunida em uma sessão de dois dias. As expectativas apontam para taxas estáveis, mas a sensibilidade sobre a independência da autoridade monetária ressurgiu, detalhe que, em outras eras, passaria despercebido. Ao mesmo tempo, as compras oficiais de Treasuries persistem, embora em ritmo menor. Desde outubro passado, por um sinal de túnel tectônico nas reservas globais, as reservas oficiais contêm, pela primeira vez em trinta anos, mais ouro do que dívida pública americana — uma tendência que prosseguiu em 2026.
O ouro tem uma característica paradoxal e estratégica: não gera fluxos de caixa futuros, logo não se avalia mediante desconto de lucros. É por isso que, em termos de arquitetura de portfólio, funciona como um alicerce de defesa — uma peça estável numa partida cujo tabuleiro muda velozmente. Investidores conservadores não compram ouro físico por nostalgia, mas por autodefesa institucional. O rali atual revela uma tectônica de poder onde a confiança nos instrumentos tradicionais foi deslocada, redesenhando fronteiras invisíveis entre moedas, títulos e metais.
Conclusão: o movimento do ouro é sintoma e estratégia. Sintoma de um mundo em fricção política e econômica; estratégia porque, no curto prazo, representa uma proteção contra riscos de política americana e choques geopolíticos. Quem observa o tabuleiro global deve perceber que, quando as peças centrais vacilam, surgem novas ancoragens — e o ouro, por ora, reivindica esse papel.






















