Por Marco Severini — Uma investigação do jornal britânico Guardian, em conjunto com a plataforma de verificação Factnameh, trouxe à luz provas médicas gráficas sobre a natureza e a gravidade da repressão das manifestações no Irã. Não se trata de relatos orais nem de imagens de smartphone; são imagens médicas — radiografias e TAC — que documentam, em escala de cinza, a violência inscrita nos corpos das vítimas.
Os exames, mais de 75 conjuntos provenientes de um único hospital de uma grande cidade iraniana e colhidos durante uma única noite de janeiro, desenham um quadro clínico que os especialistas definem como lesões catastróficas. A concentração temporal desses registros descreve um cenário de “mass casualty“, característico de campos de batalha e grandes catástrofes — uma pista que não deve ser subestimada quando se interpreta a dinâmica da repressão.
Entre os casos analisados há o de “Anahita” (nome fictício), uma jovem pouco mais que vingtenária. Suas imagens mostram múltiplas pequenas esferas metálicas, de 2 a 5 mm, dispersas pelo rosto, nas órbitas oculares e até numa área encefálica. São projéteis do tipo birdshot — perdigões de caça — que, disparados a curta distância, não representam ferimentos leves: estilhaçam ossos, destroem tecidos moles e frequentemente resultam na perda ocular. Anahita perdeu ao menos um olho, possivelmente os dois.
Outros exames revelam balas de grande calibre alojadas em pontos vitais. Um dos pacientes apresenta um projétil cravado no pescoço, com a traqueia desviada e hematoma que compromete as vias aéreas; outro mostra uma bala suspensa dentro do crânio acompanhada de uma bolha de ar intracraniana — lesão compatível com trauma incompatível com a vida. Há ainda jovens com projéteis adjacentes à coluna vertebral e feridas torácicas que atravessaram a caixa torácica, lesaram o pulmão e pararam perigosamente próximas à medula.
O painel de avaliação foi composto por especialistas internacionais — médicos de emergência, radiologistas, peritos em imagens de trauma e balística — e incluiu a consulta a um ex-médico de pronto socorro iraniano. A conclusão técnica é consistente: o software dos exames não apresenta sinais de manipulação evidente e as imagens, no conjunto, apontam para um padrão de tiro que incide sobre olhos, tórax e genitais. Em termos forenses, a repetição desse padrão sugere mais do que abuso isolado: denota uma intenção de matar ou de produzir incapacidades permanentes.
Do ponto de vista estratégico, a leitura desse material deve ser feita com a frieza de um jogador que avalia um movimento decisivo no tabuleiro. A escolha de pontos letais ou desfigurantes como alvo não é apenas crueldade; é uma técnica de intimidação e neutralização política — uma maneira de redesenhar, por força, os limites da dissidência. Essa é a face visível da tectônica de poder que sustenta a estabilidade do regime: alicerces frágeis sustentados por instrumentos coercitivos.
As implicações são múltiplas. Em termos humanitários, há um catálogo de violações de direitos humanos cuja gravidade pede investigação independente e acesso pleno a prontuários clínicos para consolidação de provas. Em termos jurídicos, embora seja prematuro decretar decisões sobre responsabilidade criminal sem documentação completa, os elementos reunidos configuram indícios poderosos que podem alimentar processos de accountability internacional.
Como analista, insisto na necessidade de preservar e ampliar a cadeia de custódia dessas provas médicas: imagens, relatórios hospitalares, testemunhos de profissionais de saúde e rotas de chegada dos feridos aos hospitais. É ela que transformará a evidência clínica em fundamento robusto para ações diplomáticas e judiciais. Sem essa arquitetura probatória, o debate perde a sustentação necessária para provocar respostas concretas no palco internacional.
Por ora, as radiografias funcionam como um mapa cru de violência: pontos luminosos e traços negros que desenham um padrão. O tabuleiro foi movido. Resta à comunidade internacional ler essa disposição das peças e decidir se responde com a passividade de um observador ou com a firmeza de quem repara danos e pune excessos.
Marco Severini — Espresso Italia





















