Por Marco Severini — No cenário delicado das negociações entre Washington e Moscou, uma imagem divulgada durante as conversas no Kremlin resume um movimento que vale mais do que uma simples fotografia: o investidor Steve Witkoff, acompanhado por Jared Kushner, apresenta ao presidente Vladimir Putin a figura de Josh Gruenbaum, pela primeira vez integrado à delegação americana. O gesto é sintomático de um redesenho de influências que ocorre nas margens das rotas diplomáticas oficiais — um movimento decisivo no tabuleiro político internacional.
Josh Gruenbaum, nascido em 1986, não é um diplomata de carreira. Formado em Direito pela New York University School of Law e com MBA pela Stern School of Business da mesma universidade, construiu sua carreira no setor financeiro privado, com passagens por KKR & Co. e por Moelis & Company, onde atingiu o posto de vice-presidente. Especialista em reestruturações complexas, fusões e aquisições e em cenários de crise, Gruenbaum traz para a cena pública competências tipicamente transacionais — aptidões úteis quando se busca rapidez e pragmatismo onde a diplomacia tradicional encontra limites.
No setor público, Gruenbaum ocupa o cargo de comissário do Federal Acquisition Service (FAS) da General Services Administration (GSA), organismo responsável por aquisições centralizadas e serviços compartilhados do governo federal dos EUA. Apesar de não ser um homem do corpo diplomático, sua presença em encontros-chave já é registrada: participou, em dezembro passado, do encontro em Miami entre negociadores norte-americanos e o enviado russo Kirill Dmitriev, além de ter estado nos contatos entre o presidente Donald Trump e o líder ucraniano Volodymyr Zelensky em Mar-a-Lago.
Recentemente nomeado conselheiro sênior do Board of Peace, o Conselho de Paz criado por Donald Trump e cuja arquitetura política incluiu convite a Vladimir Putin, Gruenbaum surge como peça de ligação entre circuitos empresariais, políticos e diplomáticos — um perfil que reflete a tectônica de poder da atual administração, que privilegia redes pessoais e transacionais.
Originário de uma comunidade judaica ortodoxa do New Jersey e neto de um sobrevivente do Holocausto, Gruenbaum também se envolveu em tarefas sensíveis no âmbito doméstico: integra a força-tarefa do Departamento de Educação dos EUA para combater o antissemitismo nos campi universitários desde os eventos de 7 de outubro de 2023. Esse background pessoal e institucional funciona como um alicerce para sua credibilidade em temas identitários e de segurança simbólica.
Como analista, observo neste enquadramento um claro pragmatismo estratégico: a administração coloca no tabuleiro alguém com profundo conhecimento do mundo financeiro e de crises empresariais para negociar em ambiente onde vetores políticos e interesses econômicos se misturam. A presença de figuras como Witkoff e Kushner ao lado de Gruenbaum sugere que os canais de interlocução adotam uma arquitetura menos formal e mais baseada em confiança pessoal e redes influentes — um padrão que pode acelerar acordos, mas também fragilizar os alicerces formais da diplomacia ao deslocar fronteiras invisíveis de autoridade.
Em suma, Josh Gruenbaum representa hoje um novo tipo de ator na arena internacional: um tecnocrata-transacionista que simboliza o cruzamento entre capital, acesso e política. Seu papel nos próximos capítulos das conversas EUA–Rússia será um teste sobre até que ponto a diplomacia pode absorver operadores do setor privado sem perder coerência institucional.






















