Sábado, 03 de janeiro de 2026
Por Marco Severini — Analista sênior em geopolítica
Alguns dias atrás o Conselho da União Europeia, na sua função executiva, aprovou sanções contra o coronel Jacques Baud e outras onze pessoas singulares e jurídicas. As medidas preveem o congelamento de bens, a proibição para cidadãos e empresas da UE de lhes disponibilizar fundos, de autorizar operações financeiras ou de conceder quaisquer recursos económicos, além de um veto de viagem. Na prática, trata-se de uma forma de morte civil: o indivíduo fica legalmente excluído do acesso a rendimentos, passados ou futuros, e impedido de circular.
Duas observações urgem.
Primeiro, esta punição draconiana foi aplicada por algo que, na essência, é um crime de opinião: não existem acusações criminais ou civis formalmente instruídas em tribunal contra os visados. Segundo, a penalidade não deriva de um órgão judicial, mas de um poder executivo, sem que tenha havido um processo público de apuração de responsabilidades com as garantias de defesa correspondentes.
Do ponto de vista dos direitos fundamentais, tal procedimento entra em choque com princípios elementares consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O Artigo 11 afirma que todo acusado tem direito à presunção de inocência até que sua culpa seja provada em processo público com todas as garantias necessárias; o Artigo 12 protege contra interferências arbitrárias na vida privada e na reputação, assegurando tutela jurídica contra tais lesões. Aplicar sanções políticas sem processo abre um precedente que corrói o alicerce jurídico da comunidade política.
Não é um incidente isolado. O governo europeu, por um lado, tem-se movido cada vez mais no território do arbítrio. Pense-se na controvérsia em torno da eventual apropriação e utilização dos bens russos congelados. A transformação de ativos congelados em instrumentos de política — sem mandado internacional claro ou decisão judicial soberana — constitui uma ruptura do direito internacional e da prática financeira que sustentam a credibilidade da UE.
Essa ruptura só não se tornou ainda mais dramática por uma conjunção de circunstâncias geopolíticas: a existência, nos Estados Unidos, de um presidente com pautas e interesses próprios sobre a destinação desses fundos; e em Bruxelas, a presença de um primeiro‑ministro belga, Bart De Wever, que adotou um posicionamento cauteloso. Por essa prudência, De Wever foi acusado pela imprensa belga de «filo‑putinismo», numa demonstração de como a narrativa pública pode rapidamente transformar prudência em suspeita.
O problema é estrutural. A União Europeia conservava — talvez como último bastião de influência — a posição de superpotência financeira, sustentada por uma moeda estável e por instituições que respeitavam o direito. Se esse capital de legitimidade for erosão por decisões executivas e por usos instrumentalizados dos ativos congelados, o resultado será um redesenho lento, mas decisivo, da tectônica de poder no cenário internacional: menos soft power jurídico, mais poder de ocasião e vontade política bruta.
Do ponto de vista interno, há um componente social preocupante: enquanto as instituições se engalfinham em manobras de poder, muitos cidadãos permanecem apáticos, quase em estado de sonolência civil. É um erro estratégico grave confiar que a legitimidade se mantém sem o constante reforço de processos justos e transparentes — como se o tabuleiro de xadrez pudesse ser rearranjado sem que os jogadores percebessem as novas regras.
Se a União Europeia pretende permanecer um actor ordenado e previsível no palco mundial, precisa recuperar urgentemente os alicerces jurídicos que a sustentam: restabelecer o papel do due process, separar claramente funções executivas e judiciais quando se trata de limitações de direitos fundamentais, e retornar à arquitetura clássica da proteção dos cidadãos contra sanções arbitrárias.
Enquanto isso não ocorrer, assistiremos ao avanço de uma dinâmica onde as decisões se moldam por pressões de lobbies, interesses geopolíticos e cálculos de curto prazo — um reino de caos manobrado por atores mais eficientes na linguagem do poder do que na da lei. E nesse jogo, a maior derrota será perder a confiança dos próprios cidadãos.

























