Por Marco Severini — Em um movimento decisivo no tabuleiro institucional europeu, a Corte de Apelo de Bruxelas concluiu que as investigações preliminares sobre o chamado Qatargate foram conduzidas de forma regular e podem prosseguir. A decisão encerra o reexame solicitado pelos investigados em setembro de 2024 e prolonga um processo que já atravessa mais de quatro anos de incertezas jurídicas e diplomáticas.
Os juízes empreenderam uma verificação aprofundada sobre pontos centrais do inquérito: o papel dos serviços de inteligência, alegadas violações da imunidade parlamentar e do segredo de instrução, um possível conflito de interesses envolvendo o juiz instrutor Michel Claise — que acabou sendo afastado — e a credibilidade das declarações do ex-eurodeputado colaborador de justiça Pier Antonio Panzeri.
Na fundamentação, a Corte afirma que “após exame minucioso, ao estado atual do processo, as irregularidades invocadas não justificam nem a nulidade nem a irrecebibilidade da ação penal”. Em termos práticos, a sentença rejeita as contestações levantadas pelas defesas e mantém o inquérito em curso, prolongando a fase preliminar, que ainda não prevê prazos certos para eventuais pronunciamentos finais.
Recorde-se que, em 9 de dezembro de 2022, as operações policiais que culminaram no apreendimento de mais de 1,5 milhões de euros em dinheiro resultaram nas detenções de Pier Antonio Panzeri, seu assistente Francesco Giorgi, a então vice-presidente do Parlamento Europeu Eva Kaili, o democrata Andrea Cozzolino e o socialista belga Marc Tarabella. Os acusados chegaram a ser postos em liberdade sob aguardo dos desdobramentos do processo, que permanece em fase preliminar.
Um ponto sensível na recente decisão foi a recusa da Corte de Apelo em analisar alegadas fugas de informação — supostamente violadoras da presunção de inocência — por entender que tais matérias pertencem a investigação autônoma sobre possíveis transgressões ao segredo de instrução. Essa investigação paralela já levou à suspensão de dois altos cargos da polícia belga, evidenciando como os alicerces da instrução se mostram frágeis e sujeitos a tensões internas.
Do ponto de vista geopolítico e institucional, a sentença tem implicações claras: estabiliza temporariamente o enquadramento jurídico da investigação, evitando decisões que poderiam ter desarmado provas ou interrompido linhas de inquirição, mas simultaneamente mantém abertas interrogações sobre a condução dos serviços de segurança e a integridade procedimental. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis no xadrez do poder europeu, em que cada movimento judicial repercute no mapa diplomático entre capitais.
Como analista que acompanha a tectônica das instituições, observo que a decisão da Corte de Apelo retorna a responsabilidade para o processo penal belga — e para as instituições europeias afetadas — de demonstrar, com evidências robustas e procedimentos incontestáveis, que não houve desvios que comprometem a investigação. O caso permanece, por enquanto, um teste de resistência para a arquitetura da justiça e para a credibilidade política do Parlamento Europeu.
Assino com a serenidade de um estrategista: enquanto as peças se movem no tabuleiro, a transparência e o devido processo serão os verdadeiros critérios que definirão os próximos lances.
Marco Severini — Espresso Italia





















