Por Marco Severini – Em uma posição de peso diplomático, o Qatar repudiou a decisão de Israel de registrar amplas áreas da Cisjordânia como “propriedades estatais” e classificou a medida como ilegal. O comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores de Doha convoca a comunidade internacional a demonstrar solidariedade e a tomar medidas concretas, inclusive avaliando a atuação de forças internacionais, diante do que definiu como expansão que corrói a soberania palestina.
A iniciativa israelense marca, na prática, uma aceleração do processo de anexação, ao estender essa nova categoria jurídica sobre cerca de 60% do território situado na chamada Área C, onde Tel Aviv mantém controle militar e civil desde 1967. Pela primeira vez desde a ocupação, parcelas significativas do território cisjordaniano passam a ser registradas sob a égide do Estado israelense, decisão justificada internamente como necessária para interesses estratégicos do Estado judeu.
Do ponto de vista político e geoestratégico, trata-se de um movimento de grande impacto. Autoridades palestinas, representadas pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), qualificaram a medida como uma “grave escalada”. A ação israelense soma-se a outras mudanças recentes: remoção de restrições sobre a venda de terras a judeus, reabertura de aquisições de terrenos por parte do Estado, expansão de competências sobre locais religiosos e aplicação direta de normas ambientais e de recursos hídricos em áreas sob controvérsia.
O contexto histórico sustenta a leitura crítica dessa política. Analistas recordam o conceito de Greater Israel, formulado em diferentes versões desde o final do século XX, que prevê uma expansão territorial que inclui a Gaza, a Cisjordânia, partes do Líbano e da Síria. No tabuleiro estratégico, a atual administração de Netanyahu parece acelerar movimentos que redesenham, de forma incremental, os limites da autoridade sobre terras contestadas, numa tectônica de poder que produz fronteiras efetivas onde a soberania permanece contestada.
O apelo do Qatar é explícito: além da condenação, Doha solicita a organização de respostas coordenadas, incluindo a avaliação do papel de forças internacionais capazes de prevenir uma escalada. Em linguagem diplomática, o pedido visa criar alicerces internacionais que contenham as consequências práticas da decisão israelense e que assegurem, ao menos temporariamente, a proteção de civis e a manutenção de status quo em locais sensíveis.
Do ponto de vista prático, a designação de terras como “propriedades estatais” altera o regime jurídico da ocupação e pode facilitar a transferência, administração e exploração desses territórios por agentes israelenses. Isso eleva o risco de deslocamento de populações, de mudanças no acesso a recursos básicos e de confrontos locais, agravando a fragilidade já existente na governança da Cisjordânia.
Como analista de relações internacionais, concebo esse movimento como um lance calculado em um jogo de xadrez diplomático. Tel Aviv joga para consolidar posições no tabuleiro; interlocutores árabes e europeus, por ora, procuram meios para contrabalançar tais avanços sem precipitar uma guerra aberta. A solicitação do Qatar por forças internacionais é, assim, simultaneamente um apelo humanitário e uma tentativa de reintroduzir atores externos na gestão de uma crise cuja escalada poderia redesenhar, de forma duradoura, o mapa político da região.
Resta observar como a comunidade internacional responderá. Uma ação coordenada exigiria coerência política entre atores ocidentais e regionais, disposição para impor custos políticos e, sobretudo, uma estratégia que preserve a possibilidade de futuro diálogo entre as partes. Sem isso, a legislação e os atos administrativos podem, passo a passo, transformar factos em precedentes difíceis de reverter.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional. Para a Espresso Italia, avalia movimentos que moldam o equilíbrio de poder no Oriente Médio e suas consequências para a estabilidade regional.






















