Por Marco Severini, Espresso Italia
A suposta morte do aiatolá Ali Khamenei representa um golpe de intensidade simbólica e estratégica para o Kremlin. Em pouco mais de um ano e meio, o presidente Vladimir Putin viu ruírem ou enfraquecerem importantes pilares de sua política externa: primeiro o presidente sírio Bashar al-Assad, depois o líder venezuelano Nicolás Maduro e agora, segundo reportagens, a liderança suprema do Irã. Esse encadeamento constitui um movimento decisivo no tabuleiro das alianças que vinha sustentando a influência russa.
Oficialmente, Moscou respondeu com a linguagem diplomática habitual: uma carta de condolências enviada por Putin ao presidente interino iraniano, Masoud Pezeshkian, na qual descreveu Khamenei como “um estadista excepcional que deu imenso contributo ao fortalecimento das relações amistosas entre Rússia e Irã”. Ao mesmo tempo, a retórica russa denunciou o que chamou de “cínica violação” da moralidade e do direito internacional — sem, contudo, anunciar medidas concretas de apoio militar ou logístico a Teerã diante dos ataques aéreos atribuídos a Estados Unidos e Israel.
Segundo Moscou, foi o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, quem telefonou ao seu homólogo russo, Sergey Lavrov, no início dos atentados. Mas o gesto protocolar não compensa a sensação de impotência estratégica que se instalou no centro de decisão russo.
O analista russo Alexander Baunov, do Carnegie Center, descreve a situação como especialmente delicada para Putin. Nos últimos meses o Kremlin tentou, por vias diplomáticas, capitalizar a reeleição de Donald Trump para obter espaços de negociação e aliviar o fardo da guerra na Ucrânia. A captura de Maduro pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro, e agora a eliminação política do líder supremo iraniano, segundo Baunov, significam que o presidente russo falhou em desempenhar o papel de “salvador” por duas vezes, perdendo parceiros que eram também instrumentos de sua projeção global.
Há antecedentes que ilustram o contraste: em 2014 Putin assegurou refúgio ao ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovych; mais tarde ofereceu asilo a Assad e sua família após um eventual colapso do regime em Damasco. No entanto, a atual sucessão de perdas ocorre em um teatro de operações — o Oriente Médio — que a Rússia historicamente considera parte de seu “emisfério” de influência. Baunov chega a comparar o episódio com o assassinato de Muammar Gaddafi em 2011, um ponto de inflexão que moldou a nova fase da política externa russa e sua ruptura com o Ocidente.
As implicações práticas para o conflito na Ucrânia e para a cooperação militar entre Rússia e Irã permanecem incertas. Kiev e aliados ocidentais acusam Teerã de fornecer armamento e know-how — inclusive os drones Shahed — que têm sido empregados rotineiramente pelas forças russas. No ano passado, Moscou e Teerã rubricaram um acordo de parceria estratégica com componentes militares, diplomáticos e econômicos, tentativa clara de firmar alicerces contra a pressão ocidental.
Além da perda simbólica de um aliado-chave, existe o fator interno do próprio Irã: um conflito ou vacância no comando pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência e abrir brechas exploráveis por atores externos, inclusive por concorrentes regionais. O parlamentar russo Anatoly Vasserman chegou a afirmar, em entrevista ao MK.ru, que a guerra interna no Irã poderia, a curto prazo, beneficiar interesses russos — advertência realpolitik que não altera, porém, a sensação de desgaste do eixo Moscou-Teerã.
Em termos geopolíticos, o que se desenha é uma tectônica de poder em movimento: a sucessão de perdas de aliados obriga a Rússia a repensar rotas de sustentação de sua influência, reavaliar riscos e construir novos laços. Para o observador que privilegia a cartografia estratégica, trata-se de um reposicionamento que exigirá, se houver margem para isso, jogadas de longo prazo e medidas concretas para restabelecer credibilidade entre parceiros tradicionais.
O fim abrupto de figuras centrais em áreas sensíveis do globo é menos um evento isolado e mais um sintoma das pressões sistêmicas que atravessam o atual ciclo de confrontos. No tabuleiro internacional, cada peça perdida por um jogador altera a configuração das próximas jogadas; cabe a Moscou, agora, decidir se conserva a calma do grande mestre ou cede à improvisação tática.






















