Por Marco Severini — Em um movimento que lembra uma jogada preparada no tabuleiro diplomático, a recente articulação em Davos e Moscou revela a nova tectônica de poder entre Washington e o Kremlin. O anúncio de que o primeiro-ministro húngaro Orban aceitou integrar o Board of Peace — a iniciativa paralela promovida por Trump para gerir a reconstrução de Gaza — foi acompanhado de uma condição russa que transforma uma oferta humanitária em um instrumento de política de potência.
Na Suíça, mais de vinte países aderiram à nova estrutura, mas Londres manteve distância, aparentemente cautelosa diante do convite republicano estendido também ao presidente Putin. Enquanto isso, em Moscou, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, encontrou-se com Putin, que declarou: “Estamos prontos a destinar um dólarbilionário à nova estrutura, sobretudo para apoiar o povo palestino”. A afirmação abriu a possibilidade concreta de fundos e expertise russos serem mobilizados para a reconstrução da Faixa de Gaza.
O gesto russo, porém, não é desinteressado. Segundo comunicados do Kremlin, a entrada da Rússia no Board of Peace estaria condicionada ao descongelamento dos bens russos retidos nos Estados Unidos. Em termos estratégicos: uma oferta financeira de grande visibilidade — US$1 bilhão — em troca de um alívio econômico que permitiria ao aparelho estatal russo recuperar liquidez e aliviar restrições impostas por sanções. O porta-voz do Kremlin, Dmitrij Peskov, sublinhou que a operacionalização jurídica de uma transferência desse tipo “para fins humanitários” demandaria ações por parte dos Estados Unidos.
As estimativas citadas indicam que o Tesouro dos Estados Unidos detém cerca de US$5 bilhões em ativos russos congelados desde antes do atual ciclo de tensões. No entanto, o núcleo mais valioso do espólio russo permanece em solo europeu: aproximadamente US$280 bilhões estão congelados, sobretudo nas contas da Euroclear, desde 2022. Peskov foi categórico ao afirmar que Moscou não abre mão da luta para recuperar esses ativos: “Continuaremos a defender os nossos direitos”.
É importante ler este episódio como uma operação de cálculo geopolítico. Já em Davos, representantes norte-americanos avaliavam que as conversações de paz entre Rússia e Ucrânia se reduziram ao único foco do Donbas. Nesse contexto, a adesão russa ao Board pode ser interpretada também como um movimento de barganha para desbloquear outras frentes — um reconhecimento tácito de que concessões pontuais no palco humanitário podem render dividendos estratégicos em áreas de interesse vital.
Do ponto de vista europeu, a cena mostrou fissuras na família ocidental: a única assinatura evidente foi a de Orban, enquanto autoridades como o presidente do Conselho Europeu, identificado nas cúpulas como Costa, apontaram incompatibilidades do Board com a Carta das Nações Unidas. A ausência de Londres e a hesitação de capitais europeias sinalizam preocupações legais e políticas sobre legitimação e sobre a redistribuição de influência no processo de reconstrução.
Como analista, vejo nesta cadeia de eventos um clássico exemplo de diplomacia funcional: instrumentos humanitários usados como alavancas para resolver problemas estruturais de poder. A oferta russa de um bilhão de dólares é, simultaneamente, recurso e peça de troca. O passo decisivo estará na capacidade de Washington e seus parceiros de formalizar, juridicamente, um mecanismo que concilie objetivamente a finalidade humanitária com garantias contra evasões políticas.
No tabuleiro, cada ator calcula riscos e ganhos. Putin apresenta-se pronto a movimentar recursos e influência, mas com reservas contratuais que visam restaurar alicerces financeiros. Do lado ocidental, aceitar essa proposta implicaria ponderar entre eficácia humanitária imediata e precedentes estratégicos de política externa. Em suma: trata-se de um lance que pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência entre grandes potências.






















