Assinala-se mais uma noite de tensão no Irã: médicos consultados pelo Time relatam que seis hospitais de Teerã registraram um número recorde de vítimas — ao menos 217 manifestantes mortos — durante as tentativas de repressão das forças de segurança. A maior parte dos falecidos, segundo esses profissionais, eram jovens atingidos por projéteis de metralhadora.
Fontes hospitalares que falaram com a BBC confirmam a mesma narrativa: as unidades estão sobrecapacitadas com feridos. Um médico que contatou a emissora por meio da rede via satélite Starlink afirmou que o hospital Farabi, o principal centro oftalmológico de Teerã, entrou em modo de crise — cirurgias eletivas foram suspensas e os serviços de emergência operam no limite. Muitos dos feridos apresentam lesões por arma de fogo na cabeça e nos olhos, um detalhe que sublinha a gravidade das táticas usadas contra manifestantes.
Em comunicado, o Exército iraniano declarou que protegerá “os interesses nacionais, infraestruturas estratégicas e propriedade pública”, convidando os cidadãos à vigilância para frustrar o que qualificou como “conspirações do inimigo”. Trata-se de um posicionamento que tenta consolidar os alicerces da ordem interna numa fase em que a tensão política assume contornos de tectônica de poder.
Nos últimos quinze dias, as revoltas ganharam terreno e se espalharam por todo o país: milhares atenderam ao apelo do ex-príncipe herdeiro exilado, Reza Pahlavi, para sair às ruas, mesmo diante do severo blackout de internet e da repressão. A ONG de monitoramento Netblocks informa que o bloqueio imposto desde a última quinta-feira prossegue, limitando severamente a capacidade dos iranianos de contatar familiares e documentar os acontecimentos.
Vídeos curtos, divulgados antes do escurecimento das redes, mostram multidões nas ruas de Teerã e de outras cidades, slogans contra a República Islâmica e pontos de combustível e destroços em chamas — imagens compatíveis com a extensão das manifestações: organizações de direitos humanos estimam mobilizações em 46 cidades de 21 províncias.
No front diplomático, os Estados Unidos reiteraram apoio aos manifestantes. O secretário de Estado escreveu no X que “os EUA apoiam o corajoso povo iraniano”; a mensagem foi difundida pelo senador Marco Rubio. Ainda hoje, Reza Pahlavi pediu publicamente ao ex-presidente Donald Trump uma intervenção de auxílio ao movimento, afirmando em mensagem no X que Trump é “um homem de palavra” e anunciando a intenção de viajar ao Irã para se juntar às manifestações.
Do ponto de vista estratégico, o conjunto de ações — corte de comunicações, mobilização militar e apelos da oposição exilada — desenha um tabuleiro complexo. O regime tenta recuar o adversário, preservando pontos-chave da sua arquitetura de poder; a oposição, por sua vez, busca aproveitar as aberturas para redimensionar fronteiras invisíveis de influência interna e externa. A comunidade internacional observa com cautela: qualquer movimento precipitado pode alterar de forma irreversível o equilíbrio regional.
Em suma, o Irã vive uma sequência de eventos que combinam repressão violenta, controle de informação e uma dissidência que, apesar do blackout, encontra modos de se articular. As próximas horas e dias serão determinantes para entender se esta é uma onda episódica ou um real movimento decisivo no tabuleiro político do país.






















