Por Marco Severini — Em análise serena e estratégica, Alissa Pavia, senior fellow do Atlantic Council e diretora da área MENA em Geopolitica.info, aponta que a operação americana contra o Irã revela mais dúvidas do que certezas sobre os fins políticos de Washington. Não se trata apenas de uma demonstração de poder militar, mas de um movimento no tabuleiro cujos alicerces ainda não foram plenamente explicados.
Pavia sublinha que a percepção da ação difere entre Estados Unidos e Europa: enquanto parte da opinião pública europeia adota uma postura crítica, nos EUA há uma divisão interna notável. Regiões como o Midwest e a chamada “Mainland America” demonstram ceticismo quanto a políticas intervencionistas, priorizando questões econômicas domésticas. Ao mesmo tempo, a eliminação de comandantes e líderes de grupos iranianos — atos que circularam no imaginário público — foi vista por parcelas da população como um resultado positivo, revelando a contradição entre ressentimentos domésticos e apelos por firmeza externa.
Sobre os objetivos estratégicos de Washington, Pavia descreve um quadro de ambiguidade: a retórica presidencial alternou entre a ideia de um regime change amplo e ações mais limitadas de “decapitação” militar. Essa indeterminação — evocada inclusive por comparações com o caso da Venezuela — gera incerteza tanto na opinião pública quanto em círculos governamentais. Um sinal palpável dessa ausência de narrativa consolidada foi a escassa presença de secretários e porta-vozes da administração nos principais programas dominicais para delinear uma estratégia coerente.
Militarmente, a capacidade de projeto de força dos Estados Unidos, em parceria com aliados como Israel, é clara. A questão essencial, observa Pavia, é a sustentabilidade política dessa operação. Guerras prolongadas tendem a corroer o consenso interno do Ocidente; sem objetivos precisos, o desgaste político pode tornar inviável qualquer campanha longa. As declarações contraditórias sobre o eventual envio de tropas terrestres só ampliam a incerteza: um verdadeiro regime change dificilmente se alcançaria sem presença física no terreno.
Outro ponto sensível é o papel dos proxy iranianos e a postura dos países do Golfo. A teia de atores não estatais, milícias e alianças regionais transforma qualquer operação direta em risco de escalada. Pavia enfatiza que o Oriente Médio pode ser redesenhado não apenas por bombardeios, mas por rearranjos de influência — uma tectônica de poder que altera fronteiras de influência sem necessariamente deslocar linhas cartográficas oficiais.
Em sua avaliação, a administração americana parece disputar dois tabuleiros simultâneos: o doméstico, onde o consenso é frágil, e o regional, onde a diplomacia e as alianças tradicionais podem ser reconfiguradas. A ausência de uma narrativa clara representa um ponto de vulnerabilidade. Num cenário onde a ação militar tem implícita uma ambição política ampla, a ausência de compromisso público e de um roteiro diplomático pode transformar um movimento tático em risco estratégico.
Concluo com a perspectiva que convém a um analista de relações internacionais: o gesto militar de uma potência é sempre um lance calculado. Mas, como num final de partida, o êxito depende não apenas da força do ataque, mas da arquitetura de sustentação que o segue — alianças, legitimidade doméstica e alternativas políticas. Sem esses alicerces, o movimento corre o risco de deixar um vazio que outros atores regionais irão procurar preencher.





















